terça-feira, 17 de setembro de 2019

Papa Francisco em Moçambique - 2



 Segui, naturalmente, muito atentamente, os passos, os gestos e as palavras do Papa Francisco na sua recente Visita Apostólica a Moçambique.
Seria já a hora de manifestar uma opinião avaliadora depois do texto que publiquei apontando a (in)oportunidade da data da visita. Aliás, o Papa fez questão de fazer o balanço a bordo do avisão de regresso a Roma.

Mas ainda não o farei. Fica para mais tarde.

Hoje creio ser de algum interesse partilhar aqui algumas opiniões felizmente não só de felicitações, na sequência do meu texto anterior (cf abaixo) e depois repetido por jornais como o conhecido CANAL DE MOÇAMBIQUE (suporte de papel) e O CORREIO DA MANHÃ (digital).

1ª - Padre Zé Luzia, acabo de ler a sua desassombrada “Opinião “ sobre a visita do nosso Papa , publicada no Canal de hoje. Devo dizer que é a primeira abordagem frontal, sem papas na língua, que vem a público num órgão de informação... que eu saiba! Acho que todo o mundo vai ler, incluindo Nyussi, claro ! Esperemos para ver o efeito! Um abraço. 

 Quem isto escreveu é pessoa sobejamente conhecida tanto em Moçambique como nalguns foruns internacionais e nos medias moçambicanos onde já emitiu opiniões candentes sobre a vida nacional. Na sua espontaneidade fica bem evidente a sua pertença à mesma Igreja de Francisco e de (todos?) nós!


 2ª Pe Zé Luzia!

Obrigada pela confiança na partilha das diferentes opiniões.....sejam positivas que também de perplexidade.....!
Como já escrevi, estás de Parabéns pela coragem de abordar a questão colocando transparência no que aconteceu.....!
Com certeza escreveste com conhecimento de causa.....isto é um ponto a teu favor se alguém quiser criar polémica.
Estamos juntos......
R....
A esta respondi:

Obrigado, Irmã, mais uma vez, por alimentares a minha combatividade, por vezes a esmorecer.  (...) Imagina que, por acaso, liguei  para a nossa Rádio Encontro e apanhei o que seria uma sessão intercativa com os ouvintes. No ar escutei o P. Jorge Ferreti, o tal da Catedral do Maputo, que à mistura com trivialidades, sobre a visita do Papa, deixou escapar que o Catecismo da Igreja Católica é o Código de Direito Canónico mas, sobretudo, que a viagem do Papa não tem nada de político

Felizmente consegui entrar como ouvinte e pelo menos deu para contestar o padre Jorge em afirmações tão lamentáveis.... A chamada acabou por cair por dificuldades do costume mas depois ainda escutei que o comentador que estava no estúdio  (um jovem universitário), concordou comigo referindo o meu nome expressamente! A Luta Continua!

3ª Esta opinião, como se pode verificar, discordanate da minha, fala por si.


Salve!
Votos de boa saúde!...Li o seu artigo sobre a visita do Papa a Moçambique.....com todo o respeito e estima, não há regras sem excepções

A visita do Papa tem carácter humano....Moçambique passou por dois terríveis ciclones e, finalmente, há esperança de que Moçambique tenha a tal paz desejada.

..........o Santo Pontifice vem dar coragem ao Povo Moçambicano, e o período é apropriado e justo.

Nao sou nenhum nenhum simpatizante e nem militante da Frelimo, aliás tive que abandonar Moçambique por causa da Frelimo, mas concordo com a visita do Papa neste período...Talvez esta visita beneficie o Partido no poder, mas tudo depende como as ditas Oposições vão usar a mesma visita para o bem deles...Mas, se formos aos factos ate à data, as ditas Oposiçoes teem sido fúteis, desorganizadas e demagogas.
 (.....)

Deixe o Papa visitar Moçambique nas calmas e não venha cá com desinformações.

Também a este cidadão respondi sobretudo solicitando que me apontasse quais eram as desinformações de que me acusava. Reduziu-se ao silêncio. Foi pena!




sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Uma Paz Definitiva e eterna?

Que dera que assim fosse!
Quem não o deseja profunda e intimamente?
Mas, diz Jesus, "o trigo e o joio crescem juntos"! E assim será até ao fim dos tempos.

Um meu amigo, escreve-me, de Portugal, e pergunta: " Que dizes à euforia da assinatura de mais um acordo entre a Frelimo e a Renamo?"

Como milhões de pessoas, procurei acompanhar o histórico acontecimento via RM... De facto, só ouvi coisa eufóricas, o que se pode compreender.

Num lapsozito, passei por uma entrevista do Raul Domingos, chefe das negociações da Renamo que conduziram a assinatura do AGP-Roma-Outubro 1992, que já me pareceu mais realista e menos eufórico.

Creio que a imediata pergunta do meu amigo de Portugal exprime as inquietações de todos os que queremos bem a esta terra moçambicana, mas já desconfiados a sentirmos para dentro: será que vai dar certo? 

Ou vai dar o mesmo que o AGP-Roma 1992? 

Ou o de 2014, assinado, por Guebuza (o das dívidas ocultas) e Dlhakama, exactamente nas presentes circunstâncias, para viabilizar eleições que depois descambaram no que vimos?

Mas claro que todos desejamos que desta vez seja uma Paz mesmo defintiva e para sempre.
A bola, como nos passados 27 anos, está do lado da Frelimo: cumprir, ou não, com transparência!

Abandonar tudo o que sejam manobras de suspeição nas eleições que se avizinham que, registemos, vão ser geridas por uma CNE sem nenhuma credibilidade. 

Para já, e de imediato, CORRIGIR as maroscas do recenseamento: não só eliminar o exagero de Gaza mas, também abrir uma semana de recenseamento extraordinária, para que os milhões de Nampula e Zambézia possam ser inseridos nos cadernos eleitorais. 


Atenção: os não recenseados não o foram por culpa própria, mas da diabólica máquina montada para obstaculizar pessoas que acorriam aos postos e eram despedidas com estúpidas alegações.  

Esta é a prova imediata. Só assim se pode falar em Boa Fé neste acordo que se diz querer ser para uma Paz Definitiva!


 E, finalmente, aniquilar os Esquadões da Morte! Não é possível acreditar que o SISE não saiba quem comanda essa máquina de terror!

Se, como ontem se ouvia a euforia dos populares dizendo que agora vamos poder circular livremente pelas estradas, não é verdade que este acordo elimine o medo larvar que atravessa a sociedade moçambicana. 

Só com total liberdade política, isenta de ameaças, se pode falar em PAZ.

E, por favor, respeitem a figura gigante do Papa Francisco, não abusando na publicitação useira e vezeira da sua vinda. Respeitem! 

Todos estamos expectantes para ouvirmos as suas palavras numa situação tão delicada, melindrosa e armadilhada que lhe criaram. Mas "Deus escreve direito por linhas tortas" e ele vai sair-se bem da tarefa!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Papa Francisco em Moçambique



Viagem do Papa a Moçambique
Quem sonegou a informação?

Se, como se diz nos círculos diplomáticos vaticanos, o Papa não costuma visitar um País em ano eleitoral; se os Bispos de Moçambique não concordam com a visita na data agora aprazada, dá para perguntar: quem enganou o Papa Francisco?

Desde que começou a ser insinuada a hipótese desta visita neste ano, pensei que ela se não concretizaria, por motivos politicamente evidentes para toda a gente.

Mas, também porque, pensava eu, o convite do PR não seria suficiente se ao seu se não juntasse o dos Bispos desta Igreja local. Porém, alguém me advertiu que este já lá estava, na fila de espera, desde 2016, como, certamente, os de muitas outras conferências episcopais do mundo inteiro, aguardando oportunidade. E, neste caso é a (in)oportunidade da data o que está mais em questão.

 Mas, afinal, contra todas as opiniões sensatas que ouvi de dentro e de fora da Igreja Católica, ela aí está: 4-6 de setembro, em plena campanha para as eleições gerais de 15 de outubro seguinte. 

Contra a opinião da maioria das pessoas com capacidade crítica e livre, incluindo algumas do Partido Frelimo (o grande beneficiário desta visita), também por razões óbvias.

O mesmo exprimiram uns whatsapistas jovens licenciados que criticaram asperamente a decisão da visita logo que o P. Giorgio, Pároco da Catedral do Maputo e membro da Comunidade de Santo Egídio "levantou a lebre" em março e eu já publiquei em texto anterior: “Embaraçados estarão alguns bispos e padres que não gostariam que se associasse este governo ilegítimo com o Papa. Mas, como padres, terão de fingir que está tudo bem. É o politicamente correcto a imperar! (http://mkt.setemargens.com/vl/69705b09efbbaad918504-303a59924a71d55dd7-e1Le5tWWe1F80ecdfa3d6c52

Eu nunca sigo o politicamente correcto, mas aquilo que a minha consciência de homem cristão me impõe. Dói-me os olhos da cara ver o meu querido Papa Francisco, para mim um regresso do Bom Papa João e de Manuel Vieira Pinto, Visionário de Nampula, nesta embrulhada.

Que os Bispos de Moçambique não foram devidamente consultados e dela não estavam à espera nas datas agora definidas é bem sabido e evidente. O recente comunicado da CEM sobre este assunto não passa de “um chover no molhado”. Qualquer um de nós, cristão e cidadão consciente, poderia elaborar tal comunicado no seu conteúdo fundamental. Mas, obviamente, os Bispos não têm como manifestar a sua discordância. Têm de se resignar e fazer, agora, o melhor que podem para não desmerecer do Papa Francisco, o grande Profeta dos nossos dias, quase a única autoridade moral do mundo inteiro. 

Mas então, como se chegou aqui?

É claro que esta visita se concretiza pela diligente diplomacia do Governo da Frelimo que soube tocar os cordelinhos com sagacidade e a costumada esperteza da raposa. Logo que o Presidente Nhussi conseguiu penetrar no Vaticano em setembro de 2017, à presença de Francisco, vislumbrei que este seria o desiderato último. Necessitada como está de engraxar a sua imagem socio-económica e política, todas as pomadas seriam poucas. E a conhecida resiliência da Frelimo venceu, mais uma vez, como tem vencido em todas as alegadas fraudes eleitorais e, porventura, vai vencer mais uma, em outubro deste ano, mas agora indulgenciada pelo Papa Francisco. 

Dá para perguntar: quem foram os aliados da Frelimo nesta decisão inesperada e polémica?

Se, há dois meses atrás, ainda podíamos apenas especular, agora, que o Presidente esteve de visita à Itália, tudo ficou claro. Pelas redes sociais, a recepção ao Presidente na Comunidade de Santo Egídio teve tanto relevo, ou mais, do que os outros actos da mesma visita. 

Dá para perguntar: a quem quer beneficiar Andrea Ricardi, o fundador da dita Comunidade? Quer mesmo servir a causa de todo o Povo de Moçambique e todas as suas forças políticas rumo à Paz efectiva? Ou tomou partido? E que proveitos tira desta partidarização?

Foi o Padre Giorgio Ferreti que acima refiro, membro da mesma Comunidade de Santo Egídio quem, em março, começou a levantar a ponta do véu anunciando em jeito de notícia rara: “vou revelar-vos um segredo. Ainda neste ano teremos o Papa Francisco connosco”.

Logo de imediato, o Arcebispo do Maputo, Francisco Chimoio, interpelado por uma TV disse não saber de nada. Perante isto, pergunto onde está a Colegialidade Episcopal tão cultivada pelo Papa Francisco em todos os seus documentos maiores?

Quem é que se omitiu e não o informou convenientemente? Quem é que o empurrou para uma visita tão polémica?

Fica, pois, claro que a Comunidade de Santo Egídio, nem sempre vista com bons olhos por muitos bispos incluindo alguns de Moçambique (vivos e defuntos), pesa muito mais, nos circuitos diplomáticos vaticanos, do que os nossos Bispos. 

É pena que outros diplomatas, bem conhecedores da situação política de Moçambique, não tenham feito a sua obrigação de esclarecer convenientemente o Papa Francisco.

Nas redes sociais continuam a aparecer textos acirrados, críticos e discordantes. 
Aventam até críticas ao Governo por alegadas imposições e restrições à movimentação do Papa em território moçambicano como, por exemplo, a impossibilidade de tocar a Beira, sacrificada pelo ciclone Idai; refere-se ainda que o papa Francisco tenha de ficar hospedado no Hotel Polana, o mais caro do Maputo, e a expensas da Conferência Episcopal em vez de ficar na casa do seu representante neste país, a Nunciatura Apostólica; ou numa casa da Igreja local como a residência do Arcebispo do Maputo ou até, como, se bem me lembro, à semelhança do Papa João Paulo II, que ficou, humildemente, na casa da Paróquia de Sto António da Polana em 1988. Não seria mais conforme à imagem de Papa dos pobres que Francisco nos vem transmitindo de si próprio desde que chegou ao ministério petrino?

Aí está uma visita só desejada pela Frelimo, na data prevista. As demais forças políticas sofrem o constrangimento de ter de a suportar porque, evidentemente, tal como os Bispos, também não podem manifestar-se contra uma personalidade gigante como o Papa Francisco. Mas, até este momento, ainda não vi nenhuma manifestação de regozijo de qualquer outro partido. 

Só a Frelimo, natural e compreensivelmente, vai aproveitando desta visita conforme os seus desígnios. Usa e abusa do acontecimento, quase quotidianamente, sobretudo nas governamentais Rádio Moçambique  e TVM, pondo até gente simples do povo, de dentro e de fora do país, a repetir a mesma retórica que está na capulana alusiva - Paz e Reconciliação! Chega até ao descaramento de aproveitar a ida de políticos seus às igrejas como aconteceu no caso abaixo reportado, com indignação, por um telespectador, pessoa de respeito e prestígio profissional e político: 

“Em parangonas, a TVM titula, no TELEJORNAL do dia 1 de Julho: "Sobre a visita do Papa a Mocambique, católicos da Matola alinhados com o governo". Sustentando a notícia, a presença do governador da província do Maputo, Raimundo Diomba, e esposa, na Eucaristia de Domingo, 30 de Junho. O governador discursou, mobilizou e com a esposa cumprimentou os fiéis, um a um, no final da missa. Na verdade, uma campanha eleitoral patrocinada por um Papa, ou seja, em ritmo Concordata!”

Mas o Bispo de Pemba, Luis Lisboa, é bem corajoso e explícito na sua Carta ao Povo de Cabo Delgado, que rapidamente se repercutiu por todo o mundo:

“...levamos mais de um ano e meio num ambiente no qual é difícil pensar e falar para o povo de “esperança, paz e reconciliação” quando vamos receber a Visita do Santo Padre. Enquanto o povo estiver instrumentalizado por poderes ocultos que pretendem impor os próprios interesses, não haverá paz, nem reconciliação, muito menos esperança”.

E como Deus é perito em “escrever direito por linhas tortas” todos rezamos para que, perante a inevitável visita, ela não redunde só em louros a favor do Presidente Nhussi e do seu partido, como bem se depreende também das palavras do mesmo bispo na referida carta:  

“Esperamos poder oferecer-lhe os frutos de uma política ao serviço da paz”

Para bom entendedor, meia palavra basta!

Acostumados à coragem do Papa Francisco, estão eles, os Bispos, e estamos todos nós, na expectativa de ver como o Papa vai “descalçar a bota” e chamar às coisas pelos seus nomes de forma que a sua visita seja, de facto, apesar do espartilho político em que o enredam, um relevante serviço pastoral à Igreja e ao Povo de Moçambique.

Vai consegui-lo? Não acredito muito que os limites da boa educação diplomática lhe permitam “chamar aos bois pelos nomes”. Mas se o conseguir, celebrarei mil missas de acção de graças!

Fico, pois, na expectativa das palavras e dos gestos do Papa que, como Manuel Vieira Pinto, sempre tem capacidade de nos surpreender. Mas não creio que no espartilho da diplomacia, o Espírito Santo consiga contornar os malefícios de uma viagem que deveria ser 100% do agrado de todas as forças políticas, de todos os crentes, e, dada a credibilidade mundial do Papa Francisco – o único líder mundial digno desse nome – de todos os cidadãos deste País.

A ver vamos. Fico expectante! (Zé Luzia)