sábado, 27 de junho de 2020

Da Vida e da Páscoa do Arcebispo Manuel Vieira Pinto





Testemunho do Padre José Sousa, SJ







Este padre não precisa que eu o apresente. Ele o faz por si mesmo quando escreve sobre a sua espantosa experiência pastoral em Moçambique que já tem registada em repetidas publicações, particularmente no seu livro de memórias.

No livro Manuel Vieira Pinto - O Visionário de Nampula deixou, a meu pedido, bem patente a sua devoção a este invulgar Bispo, passado definitivamente a Deus no passado dia 30 de Abril.

A este propósito, e com o intuito único de deixar o seu testemunho bem personalizado nas mãos do actual Bispo do Porto, Manuel Linda, escreveu o texto que aqui deixo e que lanço na rede como muita alegria.

Estaremos a fazer sempre pouco do muito que nos resta para embarcarmos activa e eficazmente na barca do Papa Francisco por "Uma Igreja desclericalizada" ou, como diz o título de um dos meus livros, "Uma Igreja de Todos e de Alguém", nascidas na "Igreja das Palhotas" editados pelas Irmãs Paulinas

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D. MANUEL VIEIRA PINTO, BISPO DE NAMPULA E  ADMINISTRADOR APOSTÓLICO DA DIOCESE DA BEIRA, UM PROFETA PERSEGUIDO E SOFREDOR

Por diversas vezes, fiz referência a D. Manuel Viera Pinto nos livros por mim, escritos: Resenha Histórica da Diocese da Beira; A Igreja e a Paz em Moçambique; 500 Anos de Evangelização em Moçambique (um livro escrito por  mim e pelo Padre Francisco Correia, Jesuíta) e, nos meus dois últimos livros: 44 Anos dum Jesuíta Missionário em Moçambique e, ultimamente, As Minhas Memórias Mais Recentes. 

Convivi com D. Manuel na Diocese da Beira, onde era Administrador Apostólico por resignação de D. Manuel Ferreira Cabral e eu, como seu Vigário Geral, por ele próprio, nomeado. Não tenho receio de lhe chamar um Profeta Perseguido e Sofredor, pois algumas vezes, fui testemunha da sua confidência, quando desabafava. “Sousa só vivemos em cheio o problema de Moçambique, quando Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos responsáveis, sofrermos juntos por Moçambique, pelo homem moçambicano e não moçambicano…” 

Eu ia-lhe dizendo que isso era quase impossível, no tempo se dizia, utopia, mas ele estava muito convencido e sentia-lhe uma grande coragem, quando alguém se colocava ao seu lado. Por isso, me chamava sempre para estar ao seu lado, quando ele pegava na caneta e escrevia algumas das suas Mensagens ou Cartas Pastorais. 

Era admirável, com uma letra igualmente admirável, saindo tudo à primeira, quase sem necessidade de reescrever a frase! 

Mais adiante referir-me-ei a um bom grupo de portugueses e também alguns moçambicanos que, nos momentos de maior perseguição, vinham falar com ele à casa diocesana. Antes de entrarem para dentro de casa, olhavam para todos os lados, pois ela estava fortemente vigiada pela PIDE. Estes leigos responsáveis traziam notícias, e, sobretudo, palavras de consolação. E davam-nos um grande conforto. 

Vinham também jornalistas, tanto do Diário de Moçambique, como do Notícias de Lourenço Marques que nos contavam as reações dos jornais sobre a expulsão dos Padres Brancos e mais tarde sobre o Julgamento dos Padres do Macuti, Padres Sampaio e Fernando, e das pressões a que estavam sujeitos os missionários e missionárias.

Ontem, dia 1 de Maio, recebi por um e-mail do Padre Zé Luzia, a notícia do falecimento de. Manuel Viera Pinto. Desde há muito, o acompanhávamos na sua fragilidade e sempre perguntávamos notícias a quem o visitava, pois, embora assim fragilizado, gostávamos de o ter connosco como testemunho vivo dum Pastor que nunca se poupou a nada, arriscando a própria vida, como a arriscou, para estar do lado do Povo Moçambicano que lutava pelos seus direitos e ser um povo independente. 

 Este direito à independência tornava-se cada vez mais evidente, sobretudo, a partir da década 50, quando a maioria dos Povos Africanos começaram a aceder a esse valor, em maiúscula, que lhes era negado pelas potências coloniais. 

Portugal continuava a querer governas as suas colónias, afirmando que o caso português era diferente dos grandes países coloniais: a França, a Inglaterra e outros, mas em realidade, com o tempo, isso não estava a acontecer nem ia acontecer. E não era, posteriormente, a operação Nó Górdio que acabaria com a guerrilha ao Norte, na Província de Cabo Delgado (Porto Amélia/Pemba) e, anos depois, estendida a todo o Moçambique…Recordo-me de ver, uma ou outra vez, no Aeroporto da Beira, o General Kaúlza de Arriaga muito atarefado e nós comentávamos que o Operação Nó Górdio estava a correr mal, embora a versão oficial fosse outra.

D. Manuel foi para junto do seu Senhor que muito amava e de quem falava com o carisma próprio dum Profeta e com uma linguagem dirigida a todos, uma linguagem que ele sabia aplicar à realidade e que manuseava o Concílio Vaticano II, quase página por página. 

Grande Bispo e grande Profeta. Participei num Curso do Mundo Melhor em S. Benedito da Manga, (Chingussura) e os Documentos do Vaticano II eram luz que iluminava o nosso caminho no momento muito especial em que todos necessitávamos dessa luz. 

Tinham sido expulsos os Padres Brancos e a Diocese necessitava de reconciliação, de compreensão de tal gesto. O Curso do Mundo Melhor que teve lugar na Manga foi orientado pelo Padre Cuvero, um sacerdote do Mundo Melhor que trabalhou com o Padre Ricardo Lombardi. Colaborou, também aqui, neste Curso, o Frei Miguel Negreiros. D. Manuel foi o grande impulsionador deste ato de reconciliação coletivo e, a partir daí, foi melhor compreendida a Mensagem do Conselho de Presbíteros como se verá a seguir, A logística deste Curso esteva a cargo das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora. A Irmã Ilda Fontoura era a grande animadora da parte das Irmãs de S. Benedito e a ela se devem os arranjos dos espaços para acolheram umas 150 pessoas.

Estudei a minha teologia em Barcelona no momento do Concílio Vaticano II e confesso que muito me enriqueci com a linguagem empregada por D. Manuel, desde o Concílio. Não houve neste encontro do Mundo Melhor, na Manga,  ninguém que não fosse fortalecido para acompanhar D. Manuel no projeto que tinha como Administrador Apostólico da Diocese da Beira. 

No dia 30 de Junho de 1971, estava eu no Centro Catequético de Nazaré, em Inhamízua, Beira, depois de ter ido ao Aeroporto  despedir o último grupo de Padres Brancos e Monsenhor Duarte de Almeida, igualmente expulso de Moçambique, quando, pela tardinha, fiquei surpreendido com a visita de D. Manuel ao Centro Catequético de Nazaré, onde, então, eu trabalhava. Nessa altura, já ele sabia da sua nomeação por Paulo VI como Administrador Apostólico da Diocese da Beira em substituição de D. Manuel Ferreira Cabral e vinha ao Centro Catequético da Nazaré, convidar-me para ser o seu Vigário Geral. Dizia-me que eu conhecia a Diocese; que os grupos de missionários - Franciscanos, Jesuítas, Padres de Burgos, Padres de Picpus, Padres Diocesanos e as diversas Congregações Religiosas Femininas - me aceitariam, num momento em que era necessário trabalhar pela união dos diversos grupos de missionários e missionárias e pela união dos leigos. De imediato, pedia-me para celebrar a Eucaristia para as 36 Irmãs Vitorianas que assistiam o Hospital Central da Beira e também me responsabilizava pela capelania do mesmo Hospital. 

Respondi-lhe que aceitava o cargo de Vigário Geral, depois de consultar o meu Superior, Padre Joaquim Leão. Pedia, além disso, a D. Manuel, para reunir o Presbitério e comunicar aos Padres a notícia da minha nomeação. Essa reunião teve lugar no dia 8 de Julho de 1971. Fui aceite pelo Presbitério o que meu deu grande consolação e entusiasmo pelo trabalho que me era confiado.

Os Jesuítas na Cidade da Beira. Na minha nomeação para Vigário Geral, num momento tão difícil para a Diocese da Beira, senti que não estava só, ao aceitar tão grande responsabilidade. Tinha o aval do meu Superior da nossa Missão de Jesuítas em Moçambique, o Padre Joaquim Ferreira Leão que residia na nossa comunidade da Paróquia de Fátima, na Beira. E com ele, nesta comunidade, estavam, também, os Padres Vasco Fernandes, José Santos, Joaquim Barata e Manuel Gama. Pertenciam, também, à comunidade os Irmãos Religiosos: José Dias e José Ribeiro. Além desta comunidade, tínhamos a comunidade de Jesuítas de Matacuane, onde era Superior e Pároco da Paróquia, o Padre Arnaldo Gomes de Lacerda. Com ele colaboravam os Padres,  António Garcia e Fernando Mata. Todos os membros das duas comunidades de Jesuítas apoiaram o meu trabalho de Vigário Geral e estiveram sempre do lado de D. Manuel Vieira Pinto, quando este Bispo quis trabalhar por uma Igreja de base e de pequenas comunidades, onde os leigos tivessem lugar como Povo de Deus. Uns dias depois, quando se pediu à Congregações Religiosas ajuda par se assistirem as Missões que haviam ficado sem os seus Padres, os Jesuítas comprometeram-se a ajudar, a comunidade de Mafambisse, onde se situava a Açucareira do mesmo nome, a comunidade de Nhamatanda (Vla Machado) e a Missão da Gorongosa.

A seguir, mãos à obra! D. Manuel partiu para Nampula depois de  combinar comigo, o trabalho mais imediato: convidar os grupos de Padres para assistirem as missões, donde tinham sido expulsos os Padres Brancos: Gorongosa, Vila Gouveia (Vila Catandica), Lundo, Chemba, Murraça, S. Benedito da Manga, Munhava e, ainda, o Centro Catequético da Nazaré.

 Pensava escrever uma Mensagem, assinada pelos Presbíteros da Beira, onde contava referir-se à expulsão dos Padres Brancos, às missões que ficavam sem Padres. Marcou uma reunião com todos os Presbíteros para se realizar a partir de 15 de Julho, Depois, sentou-se à mesa e, juntamente comigo, esboçou um rascunho com os principais tópicos dessa Mensagem. E partiu para Nampula.

Numa certa desorientação que havia causado no Governo a expulsão dos Padres Brancos de nacionalidades tão diversas, o Dr. Rui Patrício, Ministro dos Negócios Estrangeiros, veio lançar mais uma acha para a fogueira, declarando, publicamente, que os Padres Brancos, no momento da expulsão, tinham deitado fogo à Missão de Munhava e destruído os “carneiros hidráulicos” da Missão do Báruè, ficando a Missão sem água. Esta mentira do Dr. Rui Patrício foi desmentida por mim, ao verificar “in loco”, a 300 Kms da Beira, no Barué, com os próprios olhos, que os “carneiros” estavam inteirinhos e continuavam a abastecer de água a Missão. 

Quanto à Missão da Munhava, tudo estava direitinho e se podia verificar diretamente, pois a Missão da Munhava era e é um Bairro da Beira e podia ser vista por todos. As Irmãs de S. José de Cluny, missionárias na Munhava, ficaram admiradas com a mentira do Dr. Rui Patrício. Recordo-me de ter comentado com o Senhor Fernando Couto, encarregado na Beira do Notícias de Lourenço Marques esta afirmação do Dr. Rui Patrício e ele ficou muito admirado. O senhor Couto era um jornalista prestigiado do Jornal Notícias e era o pai do escritor Mia Couto. Recordo que ele publicou no Jornal Notícias, alguns comunicados que a Diocese precisou de tornar públicos para esclarecer certas posições do seu Bispo (Administrador Apostólico) e dos Padres da Beira acerca do que ia acontecendo.

Mensagem do Conselho de Presbíteros: D. Manuel regressou à Beira oito dias depois de se ter ausentado para Nampula. Fazia isto com frequência, porque se sentia muito responsável pelo múnus de Administrador Apostólico da Diocese da Beira, que lhe havia sido confiado por Paulo VI. Mas esta visita tinha como motivo principal a publicação duma Mensagem dirigida ao Povo de Deus para explicar a situação que se vivia na Diocese. 

O Conselho de Presbíteros reuniu-se em S. Benedito da Manga e D. Manuel assinou, com os Presbíteros, uma Mensagem dirigida ao Povo de Deus da Diocese da Beira com a data de 15 de Julho de 1971. Nesta Mensagem, os Presbíteros com o seu Bispo falam da Expulsão dos Padres Brancos, dos problemas das Missões que haviam ficado sem os seus Padres e afirmam categoricamente que nada fora queimado ou destruído na Missão da Munhava e de Inhazónia, no Báruè, contrariamente à afirmação do Dr. Rui Patrício.

 Creio que, com esta Mensagem, a PIDE nunca mais deixou de perseguir D. Manuel e o considerava “persona non grata” até à sua prisão em Nampula,  na Quarta-feira Santa e a sua expulsão de Moçambique, no Domingo de Páscoa no dia 14 de Abril de 1973. Mas também, esta afirmação de Rui Patrício deixava muito mal o Governo Português e o Primeiro Ministro, Marcelo Caetano.

Visita Pastoral às Comunidades que haviam ficado sem os seu Padres. D. Manuel viajou comigo com o Padre Martens, sacerdote dos Padres de Picpus para uma visita às Missões que haviam ficado sem os Padres Brancos expulsos. Connosco, viajavam, também, duas irmãs religiosas. Ao longo do Zambeze, visitámos Murraça, Sena, Chemba, Lundo. Nestas Missões, contactámos com os responsáveis das comunidades e algumas tinham a Eucaristia ou a Celebração da Palavra. Viemos impressionados com a partilha das Comunidade no exercício do ministério laical. Tudo funcionava e nada mais concluímos do que dar ação de graças a Deus porque tudo funcionava e, de agora em diante, as comunidades, pelo menos de mês a mês, receberiam a Eucaristia, devida à ajuda de todas as comunidades religiosas na assistência às Missões sem Padres.

Uma grande tribulação para D. Manuel e para a Diocese: a prisão dos Padres do Macuti: Padre Joaquim Teles Sampaio e Padre Fernando Mendes. A Paróquia do Macúti era, há uns 50 anos, uma Paróquia, ao norte da cidade da Beira, onde residiam geralmente, os brancos, em belíssimas habitações, mas havia, também o Bairro do Macurungo, habitado por uma classe média composta de negros, mestiços, brancos e indianos. As casas do Bairro do Macurungo eram boas, em alvenaria. O pároco do Macuti era o Padre Joaquim Teles Sampaio, atualmente, a residir na Santa Casa da Misericórdia, em Manteigas e o seu coadjutor era o Padre Fernando Mendes.

 Não preciso de dizer muito sobre o padre Sampaio. A sua palavra era profética e denunciava, fortemente, a guerra colonial com o cortejo de injustiças que a acompanhavam. Mas era também uma palavra que anunciava a esperança dum Moçambique melhor, descolonizado e, por isso, a sua palavra era ouvida por todos: moçambicanos e não moçambicanos. No dia 1 de Janeiro de 1972, o Padre Sampaio fez uma homilia no Macuit e, por ser o dia da Paz, denunciou a guerra e as suas consequências nefastas para todos. Esta linguagem do Padre Sampaio incomodava muita gente e era necessário neutralizá-la. Um dia a Pide armadilhou-lhe uma ratoeira por causa da Bandeira Nacional. A Bandeira entra ou não entra na Igreja para as Cerimónias das Guias de Portugal, perguntavam? O padre Sampaio estava a atender pessoas. Não proibiu a entrada da Bandeira na Igreja, mas apenas respondeu, a quem lhe perguntava, que se consultasse o Regulamento. Mas logo começou um grande alarido, gritando alguns que o Padre Sampaio tinha impedido a Bandeira de entrar na Igreja. Entretanto, por ali se viu o Diretor da PIDE e não foi difícil compreender que a Polícia tinha armado uma ratoeira ao Padre Sampaio. Na manhã do dia seguinte aparecem cinco grandes fotos do Padre Sampaio no jornal Diário de Moçambique encimadas pela palavra: traidor. Este Jornal por falta de orçamento fora vendido pela Diocese no tempo do Bispo Manuel Cabral e, nesta altura, era seu Diretor o Engenheiro Jorge Jardim. Passaram alguns dias do episódio do Macuti, mas todos pensávamos que, mais tarde ou mais cedo, a PIDE viesse prender o Padre Sampaio e o Padre Fernando. A prisão veio a efetivar-se e os Padres foram levados para os calabouços da PIDE no Bairro da Ponta Gêa. Depois, foram transferidos para a Prisão da Machava, em Lourença Marques e, aí aguardaram o julgamento que se veio a realizar um ano depois, em Janeiro de 1973. 

Retiro em Vila Pery (Chimoio). Nem todos os sacerdotes e, sobretudo algumas irmãs Religiosas, compreenderam o que havia sucedido e facilmente censuravam os Padres. Mas era preciso aguardar o julgamento e não proferir acusações apressadas. D. Manuel, Pastor como sempre foi, marcou um retiro para se realizar no Colégio das Irmãs Franciscana de Nossa Senhora, em Vila Pery (Chimoio). Esse Retiro foi orientado pelo Padre Feytor Pinto e aí, em discernimento e oração, todos ficamos mais esclarecidos e sobretudo reconciliados. 

Entretanto, durante os cinco dias que durou o retiro, D. Manuel encarregou-me de viajar cada dia para a Beira, afim de trazer noticias acerca dos padres presos na Ponta Gêa. Numa dessas minhas idas à Beira, juntamente com o Padre Manuel Carreira das Neves, fui falar com o Coronel Sousa Teles, Governador da Beira e pedir-lhe, em nome de D. Manuel, que pusesse os Padres fora da prisão, pois estavam inocentes. Notei que não faltava desejo ao Governador para soltar os Padres, mas sentimo-lo com medo da Polícia política, na altura, omnipotente e omnipresente. Apesar da boa-vontade, o Governador tinha as mãos atadas e os Padres continuaram na prisão até serem transferidos para a Prisão da Machava, uma prisão cheia de presos políticos, situada junto de Lourenço Marques. Esta era, geralmente, uma prisão para prisioneiros políticos.

A Defesa dos Padres. Uma vez na Prisão da Machava, pouco mais nos ficaria do que aguardar o julgamento que teve lugar, apenas um ano depois, no mês de Fevereiro de 1972. A conselho do nosso Advogado, Dr. Carlos Alberto Palhinha, convidámos para advogados dos Padres, os Doutores: João Afonso dos Santos (irmão do Zeca, William Pott e Pinto Leite. Fomos a Lourenço Marques convidar também o Dr. Adrião Rodrigues que aceitou de bom grado comprometendo-se a diligenciar tudo o que fosse necessário para o julgamento, em Lourenço Marques.

Com o Engenheiro Pimentel dos Santos, Governador Geral de Moçambique. Este encontro foi muito bom. D. Manuel teve a impressão de dialogar com um homem muito humano e culto. Já estava a par da expulsão dos Padres Brancos e, também já se tinha inteirado da prisão dos Padres da Beira. Deu-nos a esperança de que os Padres seriam soltos, mas foi-nos prevenindo que preparássemos bem a sua defesa, pois no momento presente, a situação era difícil. Estranhou muito que a PIDE ainda não me tivesse dado licença para visitar os Padres, apesar de eu todos os dias ir à Ponta Gêa para os ver. Entretanto, tinha confiança, porque o Governador viria à Beira e eu, logo à saída do avião, lhe comunicaria o que se estava a passar. No momento da visita, ainda não tinha licença para ver os Padres e o Governador achou estranha esta nega da PIDE. Disse-me que faria diligências para eu visitar os Padres ainda nesse dia e assim aconteceu. Pela parte da tarde veio um Protocolo da PIDE que eu assinei, onde constava a licença para visitar os Padres. Visitei-os logo de imediato.

D. Altino Ribeiro de Santana na Beira. Em  Nampula, continuou a perseguição ao Profeta, D. Manuel. A perseguição na Beira e, agora, em Nampula, culminou com a expulsão de D. Manuel de Moçambique. A causa desta expulsão foi tudo o que descrevi até agora. Nunca D. Manuel deixou de anunciar a justiça e de denunciar as injustiças. Por isso, no dia Mundial da Paz de 1974, pronunciou na sua catedral a homilia Repensar a Guerra. Para o Governo colonial, a guerra não se podia repensar, mas sim fazê-la. Por aqueles primeiros meses do mesmo ano, assinou o documento dos Missionários Combonianos  Um Imperativo de Consciência incidindo sobre a ambiguidade da actividade missionária da Igreja em estreita ligação com o governo e afirmando os direitos do Povo moçambicano à sua identidade própria e autodeterminação. Como acima deixei dito, na Quarta-Feira Santa desse ano D. Manuel seria preso em Nampula e expulso de Moçambique no Domingo de Páscoa (14 de Abril). 

Como sempre, a PIDE não deixou de promover esse alarido para ficar bem na fotografia. Mas o povo não se deixou enganar. Expulso de Nampula, D. Manuel, no exílio (no seu próprio país-natal, Portugal), continuava a ser o seu Profeta querido. D. Manuel foi acompanhado para o Maputo por alguns missionários Combonianos, expulsos de Moçambique e pelo Padre João Cabral que trabalhava com D. Manuel e o acompanhou até Lisboa. Inicialmente, D. Manuel foi viver o seu Exílio na Casa do Senhor João Ribeiro da Costa e sua esposa, no Cartaxo. Ambos tinham feito o Curso do Mundo Melhor. Ali, o visitei umas duas vezes, com o meu primo, Padre Agostinho de Sousa que era o seu Vigário Geral, em Nampula. Deu-se o 25 de Abril e o General Spínola convidou-o para Conselheiro de Estado. Consultou-me e a algumas outras pessoas e todos dissemos que não. Assim poderia preservar melhor a sua vocação profética. Graças a Deus, porque Ele visitou o seu povo e lhe deu um profeta.
A Igreja que está no Porto, em Nampula e na Beira (Moçambique) não podem esquecer essa graça! 
Aos oito dias do falecimento de D. Manuel Viera Pinto, no Porto,
Covilhã, 4 de Maio de 2020
Padre José Augusto Alves de Sousa S.J.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

LEMBRANDO DOM MANUEL VIEIRA PINTO



Por Benedito Marime
Publicado no jornal SAVANA - 8Maio2020






Cerca das 23,30 horas de Moçambique do dia 30 de Abril, recebi do Padre José Luzia uma
mensagem electrónica, dando-me conta do falecimento, uma hora e meia antes, na Cidade do Porto, Portugal, de Dom Manuel Vieira Pinto, Arcebispo Emérito de Nampula, desde 30 de Dezembro do ano 2000, dedpois de dali ter sido Bispo de 1967 a 1984.

 A notícia deixou-me acabrunhado, o que explica o tempo que levei a reagir, já depois de outros o terem feito. Aqui venho, pois, dar o meu testemunho sobre essa ilustre figura que a História de Moçambique, a eclesial e a nacional, em devido tempo, sem paixões e condicionalismos, um dia irá registar. Pretendo aqui falar daqueles momentos em que, a título pessoal, me pude articular com ele e falar um pouco daquilo que pude acompanhar da sua longa e benemérita trajectória.

 Conheci-o no ano de 1966, aí por finais de Agosto/princípios de Setembro. Eu era então um adolescente aluno do Seminário Franciscano de Maria Imaculada de Amatongas, Manica. Tínhamos acabado de chegar de férias e estávamos a preparar o novo ano formativo e académico, com o arranjar da casa, retiros de preparação e assim podermos programar os dez meses seguintes.

 O Padre Manuel Vieira Pinto, acompanhado do Padre Vítor Feytor Pinto, ao tempo responsáveis do Movimento por um Mundo Melhor, tinham vindo de Portugal pregar retiros ao Clero da Arquidiocese de Lourenço Marques e das Dioceses da Beira e de Tete, numa linha de divulgação da doutrina dimanada do Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965), poucos meses antes encerrado. 

 Na Beira, este momento realizou-se em duas fases: a primeira no Colégio dos Irmãos Maristas, na Cidade (hoje Reitoria da UCM), sendo a de Amatongas a segunda. Nesta participaram três dos ainda raros sacerdotes católicos moçambicanos, designadamente, os Padres Francisco Pinho Pereira, de Marromeu, Franciscano e os Diocesanos Mateus Pinho Gwengere, de Murraça, Diocese da Beira (sem nada a ver com o anterior, a despeito do nome) e Domingos Gonçalo Ferrão, de Tete. 

 Embora o programa do objectivo da sua estada ali fosse muito intenso, o Padre Manuel ainda arranjou tempo para se entreter com os jovens seminaristas, com eles estabelecendo diálogos muito vivos, sobre temas até aí inéditos. Já o Padre Vítor também esteve connosco, para divulgação dos novos cânticos religiosos consonantes com a renovação conciliar. Deste me recordo da sua voz diamantina.

A impressão que o Padre Manuel causou em nós foi tal que todos pensámos que aquele seria Bispo, o que se adensou quando, uns meses mais tarde, faleceu Dom Sebastião Soares de Resende, primeiro Bispo da Beira. O Padre Manuel veio a ser Bispo, sim, mas nomeado para Nampula, a 27 de Abril de 1967. Apesar de o termos desejado para a Beira, celebrámos esta nomeação como a de uma pessoa de família e foi nesse espírito que, no dia 29 de Junho do mesmo ano, data da sua ordenação episcopal, rezámos por ele. 

 Importa dizer que a cerimónia da sua ordenação decorreu na Igreja da Trindade, no Porto, e a ela presidiu o Núncio Apostólico cessante em Portugal, o já promovido a Cardeal Dom Maximiano de Furstermberg. Em momento indicado, o novo Bispo recordou os Bispos do seu percurso no Porto, designadamente, Dom António Ferreira Gomes “dos meus tempos de Seminário e dos primeiros anos do meu sacerdócio”. Ora, o referenciado, inimigo declarado da ditadura salazarista, fora por esta exilado, sendo, pois, incómodo e escandaloso evocar o respectivo nome numa cerimónia com tanta afluência de público bem heterogéneo. Foi o primeiro escândalo de entrada do novo Bispo.

 O segundo escândalo aconteceria já nos seus primeiros momentos em terra moçambicana. No exacto momento do seu desembarque, a 24 de Setembro de 1967, quando, quebrando o protocolo, depois de recebido à descida da escada do avião pelas mais altas figuras protocolares, ao invés de se dirigir aos previamente posicionados para serem as primeiras pessoas a cumprimentarem o novo Bispo, dirigiu-se à massa de “nativos” convenientemente colocados à distância, para, do meio destes, erguer uma criança negra, sob as palmas dos “nativos” e a murmuração dos colonos assim secundarizados. 

 Nas cerimónias de saudação no Município e no Governo do Distrito, em vez das convenientes loas aos “Descobrimentos” e às glórias de “Portugal missionário”, o Bispo preferiu falar da doutrina conciliar sobre a actividade missionária e da doutrina social da Igreja, como necessários para a harmonia entre todas as gentes de Moçambique.

 No trato com o pessoal missionário, não foram poucos os elementos deste extracto que se não reviram nas teses do novo Bispo e, rapidamente, deixaram a Diocese, de regresso aos Açores e à Índia, donde o anterior Bispo os trouxera a Nampula, como conterrâneos, no primeiro caso, e como da sua anterior Diocese, no segundo caso.

 Visitada a Diocese, para conhecimento das realidades no terreno, investiu decisivamente na implantação de uma Pastoral bem enraizada e respeitadora da identidade dos moçambicanos, para o que abriu o Centro Catequético de Anchilo (1969), onde catequistas e suas famílias se preparavam como animadores pastorais das futuras comunidades a abrir e das já existentes, no caso destas já com a dissociação dos binómios escola-capela, europeizar e evangelizar. Os catequistas em formação e suas esposas eram também preparados para serem agentes de desenvolvimento nos seus locais de destino, abertos a toda a população circunvizinha. 

 Este Centro Catequético tornou-se também Centro de Integração de missionários e missionárias recém-chegados à Diocese (e muitos deles a Moçambique), onde estes se iam introduzir na língua e na antropologia locais, só sendo colocados depois desse tirocínio. No mesmo sentido, reorganizou e radicalizou a formação nos Centros de Formação de Professores de Marrere e de Professoras de São Pedro (Napipine), e no Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima, que encontrou já existentes de há muito, e com manifestos insumos curriculares de alienação cultural pró-colonização.

 Para atender à grave carência de estabelecimentos de ensino secundário, conseguiu, a partir do ano 1969, as licenças necessárias para a abertura de Colégios-Liceus, externatos para o ciclo preparatório do ensino secundário, designadamente Fernão Veloso, em Nacala, Santa Maria, em Malema, Santa Teresinha do Menino Jesus, em Mutuáli, Nossa Senhora Rainha da Paz, em Namapa, e São Paulo de Monapo. Aqui, conseguiu, também e finalmente, a oficialização da Escola de Artes e Ofícios da Carapira, colocando-a como anexa à Escola Técnica Baltazar Pereira do Lago, da Ilha de Moçambique, velha aspiração dos Padres Combonianos, que a haviam fundado. 

 A celebrar este feito, o Governo subsidiou a construção de novos pavilhões, inaugurados em 1971, no quadro de uma visita ali do Dr Adelino Augusto Marques de Almeida, “Secretário Provincial de Educação” de Moçambique.  Presenciei este evento e foi quando, seis anos depois do primeiro encontro em Amatongas, e já então eu vivendo em Nacala, me aproximei de Dom Manuel e me identifiquei, passando, desde então, a um relacionamento personalizado, tanto que no ano seguinte, me convidou à inauguração da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Mueria, a 9 de Junho de 1972. 
 No dia seguinte, fui a Itoculo visitar uma pessoa de família, quando ali passou o Bispo. Era dia de Camões, mais conhecida por dia da Raça (sic!). Aos discursos e récitas dos alunos da Escola Primária,  ensaiados a preceito para glorificar a efeméride, o Bispo respondeu enfatizando a necessidade de estender a todos, sem distinção, os benefícios da “civilização” – uma alfinetada ao Administrador e ao Chefe do Posto e colonos fazendeiros que ali se tinham feito presentes e haviam preparado um “almoço volante” que, diga-se de passagem, estava opíparo e bem regado com uns bons tintolas!

 Ainda em 1971, a Diocese da Beira entra em convulsões, com a renúncia do Bispo Dom Manuel Ferreira Cabral, também ele entrado em 1967, mas logo fortemente contestado pelo Clero, formatado na linha de Dom Sebastião Soares de Resende, também ele conhecido adversário do regime salazarista. O Vaticano nomeia Dom Manuel Vieira Pinto Administrador Apostólico da Beira, para onde vai residir a tempos. 

 Pouco antes, tinha-se dado a expulsão de Moçambique, a pretexto de desrespeito à soberania portuguesa no território, decretada pelo Governo contra os Padres Brancos, que trabalhavam nas Dioceses da Beira e de Tete, deixando várias das mais pujantes missões privadas de sacerdotes. Dom Manuel, mal chega, reúne o Clero para uma reflexão, no final da qual é emitida a célebre “Mensagem do Conselho de Presbíteros da Beira” que, pela primeira vez, é também assinada por missionários portugueses. Nele, sem apoiar expressamente as razões invocadas pelos Padres Brancos, o Conselho reconhece o gesto profético do seu pronunciamento e interpela-se sobre que futuro para a actividade missionária num meio sócio-económico com tantas condicionantes. 

O Governo não gostou e, a partir de então, toma de ponta a Dom Manuel Vieira Pinto, que passa a ser constantemente vigiado pela PIDE, cujo Chefe em Nampula, o Inspector José de Almeida Poço, era um ex-padre da Arquidiocese de Évora! Mas o Bispo não vergou. 

 Meses depois, mais concretamente, em Janeiro de 1972, dá-se a prisão dos “Padres do Macúti” (Joaquim Teles Sampaio e Fernando Mendes), a pretexto de desrespeito à Bandeira Nacional, que não tinham deixado entrar na Igreja para uma cerimónia de juramento de escuteiros, em boa verdade porque omissa no respectivo ritual, mas logo servindo à extrema direita de rastilho para a perseguição aos incómodos do regime, tanto mais que o Padre Sampaio, na Missa do dia 1 de Janeiro, Dia Mundial da Paz, tivera a coragem de aduzir o massacre de Mucumbura, meses antes ocorrido em Tete. 

 O Bispo interessa-se pelo seu caso e, em pronunciamento público, diz que os métodos usados para desagravar o pretenso insulto ao Pavilhão Português se tinham mostrado de todo indignos da Bandeira que se pretendia defender, até porque nesta estão impressas as Cinco Chagas de Cristo; vai falar com o Governador-Geral e constitui uma equipa de advogados de peso, para os defender no Tribunal Militar, em Lourenço Marques, no qual à excepção de Dom Custódio Alvim Pereira, que se alheou do caso, para não confessar o seu alinhamento com o Governo, os Bispos presentes renunciaram ao privilégio processual da audição ao domicílio, como declarantes que eram, e, alto e bom som, dizem algumas das verdades de que já sabiam que o Governo não havia de gostar.

 Neste julgamento já esteve presente o novo Bispo da Beira, Dom Altino Ribeiro de Santana, a quem Dom Manuel entregara a Diocese em Maio de 1972, que, perante o ambiente marcadamente intimidatório do aparato pidesco e de “justiça militar”, acusou alguns problemas de saúde, de foro cardio-patológico, até que, escassas duas semanas depois, no auge das manifestações boçais de colonos instrumentalizados – que até um balde excrementos humanos lhe foram deixar à porta de casa – a 27 de Fevereiro de 1973, se apagaria, vítima de enfarte de miocárdio. De Nampula, na celebração do oitavo dia do seu falecimento, em Missa por ele celebrada na Sé Catedral, D. Manuel assinala o passamento dizendo: “a notícia correu célere e os poucos jornais dedicaram-lhe algumas linhas. Talvez a vida e a morte de um Bispo não interessem ao grande público; talvez o sentido de uma vida totalmente entregue à salvação dos homens seja hoje mais difícil de compreender; talvez as consciências andem mais alienadas”.

 Ao longo desse ano de 1973, o Bispo vê negada a entrada de novos missionários e o regresso dos que haviam partido para férias ou tratamento no Exterior e dá-se a divulgação do massacre de Wiriamu, divulgado por um Padre inglês que recebera o relatório factual a propósito elaborado com precisão pelo Padre Domingos Gonçalo Ferrão, da Diocese de Tete (aquele que eu tinha conhecido em 1966, nas circunstâncias acima indicadas) e a guerra de libertação nacional expande-se a novas frentes, até cercanias da Cidade da Beira. É, pois assim que, a 1 de Janeiro de 1974, Dia Mundial da Paz, na homilia - Repensar a Guerra -, o Bispo ataca ferozmente a situação de guerra prevalecente e o beco sem saída para o qual o Governo parecia querer conduzir o território. Este pronunciamento atinge o rubro quando, em Fevereiro desse ano, Dom Manuel assina, com os missionários e missionárias combonianas, o documento “Imperativo de Consciência”, no qual se pede, institucionalmente, a ruptura da Igreja com o Governo colonial, face às amarras derivadas do Acordo Missionário, por via do qual aquela recebia subvenções dos cofres do Estado.

 Aí, estalou o verniz: o Governo expulsou da cidade o Bispo e de Moçambique 11 dos missionários combonianos subscritores do documento, entre eles dois portugueses, os Padres Rogério Artur de Sousa (tinha vindo para Moçambique como capelão; desmobilizado, ficou) e Manuel Ferreira Horta. Nas arruaças da hora da retirada, estes foram os mais agredidos, relativamente aos seus companheiros não portugueses, tendo ao primeiro sido arrancado um dente a murro. O Bispo viu fotos suas espalhadas na cidade, com dizeres a chamar-lhe traidor e a dar-lhe a morte. E só não levou uns tabefes porque, encenando, o Governador do Distrito, Intendente Manuel Gomes do Amaral, e o Comandante da Polícia, fizeram barreira, em torno do Bispo e do Núncio Apostólico, Dom Giuseppe Maria Sensi, ido de Quelimane para acompanhar aquele neste doloroso transe. 

 A caminho de Lourenço Marques, escalou Inhambane, onde o Bispo local, Dom Ernesto Gonçalves Costa, logo se ofereceu para o acolher, até as águas serenarem, mas Dom Manuel, agradecendo, prosseguiu viagem para a Namaacha, onde foi acolhido pelas Irmãs de Apresentação de Maria. Aí recebeu a visita do Arcebispo Dom Custódio, pedindo-lhe que  abandonasse Moçambique, “para bem desta terra”, ao que o visado se opôs firmemente, até ser visitado, com a mesma proposta, pela PIDE, na pessoa do Inspector Diogo Frade Júnior, sobrinho do Padre Franciscano Afonso Simões Frade (!), que, perante a irredutibilidade de Dom Manuel, formalmente o notificou da deportação, que veio a consumar-se, num ambiente de grande tensão, no dia 14 de Abril de 1974, Domingo da Páscoa.  

 Já em Lisboa, foi objecto de um sonoro comunicado difamatório, em nota oficial do Ministério do Ultramar. Entretanto, viajou para Roma, para um encontro com o Papa Paulo VI. Regressando a Portugal, aí o apanha o 25 de Abril, Data da Revolução dos Cravos, que derrubou o regime fascista pós-salazarista de Marcelo Caetano. É então convidado pelo General António de Spínola, novo Presidente da República, a integrar o Conselho de Estado, mas ele declina, interessado que estava em regressar à sua Diocese de Nampula, o que vem a suceder já no Governo de Transição, quando já tinha ganho a admiração de Samora Machel que, ao lado de Dom Sebastião Soares de Resende, Dom Altino Ribeiro de Santana, Padres Brancos e Padres do Macúti, o aponta como dos poucos exemplos de pública demarcação da linha oficial até aí seguida institucionalmente pela Igreja Católica em Moçambique. É neste contexto que é o único Bispo católico convidado oficialmente às cerimónias da proclamação da independência Nacional. 

Chega a ser-lhe proposta a aquisição da nacionalidade moçambicana, o que ele recusa, argumentando que o que fizera, o fizera por ser missionário e fá-lo-ia em qualquer outro lugar para onde tivesse de ir trabalhar nessa qualidade.

 Os anos que se seguem, com os excessos da primeira República, não só para com a Igreja, mas para com o próprio Povo, e a guerra fratricida dos 16 anos, que vitimou alguns dos seus missionários, não deixaram também de merecer o seu pronunciamento e intervenções seguidas junto do Presidente Samora Machel que, mesmo discordando, o respeita e admira. É assim que ele consegue autorização para visitar alguns centros de reeducação e os Estudantes moçambicanos em Cuba, com encontros com o Presidente antes e depois dessas deslocações. Consegue, mesmo, o regresso ao País de um dos seus pupilos, o Padre José Luzia, que havia sido expulso do País, nas famosas operações 20/24. 

 Enquanto isto, começa a notar-se um certo distanciamento a nível da CEM (Conferência Episcopal de Moçambique), embora, no início das diligências desta para o processo conducente ao AGP, e sendo ele já Arcebispo de Nampula, tivesse sido integrado na equipa inicial para a busca do diálogo Governo/RENAMO. Aceitou integrar os primeiros passos, mas logo a seguir fez notar que ele era estrangeiro, ademais português, pelo que melhor seria que o processo fosse encetado por Moçambicanos.  

 Em Nampula, em termos de marcha da sua Diocese, depois de ter visto desaparecer todo o vasto património imobiliário que a Diocese detinha, viu uma boa parte dele ser devolvido, já em tempos do Presidente Joaquim Chissano – Igrejas encerradas foram reabertas; residências missionárias foram restituídas e, bem assim, o Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima que, durante dez anos, funcionara como Centro Interprovincial Norte de Formação de Quadros do Partido Frelimo! Teve ainda a alegria de ver o trabalho de entrosamento da fé de centenas de Comunidades, muitas delas não existentes do antanho, agora orientadas por animadores formados no Centro Catequético de Anchilo, a de  voltar a ordenar um bom número de novos sacerdotes diocesanos moçambicanos, de fundar a Congregação Diocesana das Irmãs da Paz e Misericórdia, e de ver nascer a nova Diocese de Nacala, à qual passaram a pertencer as Paróquias do Litoral de Nampula e cercanias. Foi neste ambiente que celebrou a Missa de Acção de Graças pelo AGP e comemorou as suas Bodas de Prata Episcopais, em 1992.

 O limite de idade, alcançado dois anos antes, e a cada vez mais precária saúde levaram-no a resignar, a 30 de Dezembro de 2000, data da nomeação do seu sucessor, Dom Tomé Makweliha, a quem entregou a Arquidiocese em 11 de março seguinte, ausentando-se, depois, para Portugal, para, dizia, não ofuscar os primeiros momentos do seu sucessor, pois tinha a intenção de regressar à sua Nampula, para aí viver e morrer e nela ficar sepultado, junto do seu Povo. Infelizmente, já não pôde voltar, pois foi em Portugal que a morte o apanhou. Nem por isso, os Moçambicanos, crentes da sua Igreja ou não, o esquecerão, mesmo que faltem, já desde agora, pronunciamentos oficiais a seu respeito.

 Grata memória a de Dom Manuel Vieira Pinto, 3º. e último Bispo de Nampula e seu 1º. Arcebispo.
Paz à sua alma. 

Benedito Marime
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