segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Novos Céus e Nova Terra (Duas reacções de leitores)

Recebi algumas reacções de pessoas amigas ao post com este mesmo título "Novos Cèus e Nova Terra"
Pelo interesse que me parece que têm em termos de intercâmbio de opiniões, aqui transcrevo duas.

1ª reacção

" Li o artigo e achei bastante interessante, sobretudo por manifestar as suas reais convicções...Ultimamente fomos habituados a ler e ver na televisao analistas a defenderem mais o que os outros (alguns) pretendem do aquilo que  o bom senso evidencia...

Nao sei se foi a melhor forma...mas foi a forma possivel de se fazer algo em prol duma suposta mudanca que viesse em defesa do povo, que clama deseperadamente por Socorro do sufoco que lhe está a ser imposto (ao chegar-se onde se chegou creio k valeu a pena , alias tudo vale a pena se a alma nao e' pequena)  com todas as tristezas, desgracas e sofrimentos pelo que o povo passou ...

Os discursos da renamo trazem no fundo um subjacente pedido de perdao...os discursos do governo (ultimos) nao sendo de arrogância desmedida, pretendem tapar o sol com a peneira fazendo transparecer que não tem culpas no cartório e agiu da melhor maneira...e aqui nem quero dizer que um é melhor que o outro...

o xadrez politico alterou substancialmente as regras internas de fazer politica...estamos a trazer soluções antigas para problemas novos (alguns)  e influenciados por tendências que marcaram fases do nosso percurso politico...funciona pouco...tem de haver muito boa vontade  de quem de direito para alterar este estado de coisas e dessa attitude dependerá o futuro do Moçambique...

Tome que rumo tomar, Moçambique nunca mais vai ser o que era antes e o que tiver que acontecer somente o futuro no-lo dirá... e tem que se tomar consciência dessa realidade presente...

É apenas um ponto de vista...

O autor desta opinião, a quem perguntei se podia também publicar a sua identidade, recomendou-me:

"pode dizer que recebeu de uma pessoa amiga...tristemente ainda tem de ser assim..."

Vemos bem que o medo ainda prejudica muito a saúde democrática por que todos ansiamos. 

2ª reacção:

 "Zeluzia,

Cheguei tarde tarde em frente a tela de televisão, me encontro em Nacala para mais uma semana de aulas modulares mas, tive a oportunidade de assistir a assinatura do acordo geral de Maputo. Ainda nao tive a oportunidade de ler o conteúdo inserido nos tais documentos o que, suscita alguma expectativa. Mesmo assim, os entrevistados manifestaram algum optimismo. 

Me surpreendeu deveras o discurso de Afonso Dhakama: muito curto reconciliatório e  essencialmente recheado de urbanismo, cidadania e muita humildade. É pena tenha sido tudo feito à custa de sangue de inocentes. Desta vez me parece estar convencido de, com apoio e ajuda de facilitadores,  ter resolvido os problemas que, em Roma, não terão conseguido, por não terem percebido as peripécias do governo do dia, na altura. 

Percebe-se que os negociadores acutais,  com ajuda de facilitadores nacionais e com alguma mão do exterior, suplantou a vontade endógena. Os apelos à não violência que os seis dias no minimo tentaram mostrar me parce ter sido a maior prenda para os que vivem e querem pacificamente viver em Moçambique. Quem teria  elaborado discurso? Acreditamos que tera sido escrito por ele próprio.

Por sua vez, o senhor Armando Emílio Quebuza, num discurso que afastou todas as hipóteses de caça às bruxas, na presença de toda a ala conservadora de seus companheiros, criou o fundo de pacificação. Como disse, não tem intenções de distribuir dinheiro mas apoiar, de certa maneira, aquelas forças residuais da Renamo, relegadas para o plano secundário. 

Denotou-se alguma sinceridade na cara dos fazedores para a devolução da paz aos proprietários dessa paz que, não sendo povo, vivemos neste pedaço pertença de todos os que se acham moçambicanos. Somos ainda um povo e uma nação em formação... 

As reações das pessoas não se fizeram esperar, com elogios por todos os lados. A esperança renovada. A campanha de Daviz não parou, continuou com festa gratuita apelando ao voto e à mudança de atitude inclusiva. Respeitaremos o calendário de mais 20 anos de paz? Eu acredito que sim. (SCTurra)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Novos Céus e Nova Terra

À hora em que escrevo, deve estar a terminar o banquete da reconciliação no Maputo. Que Deus seja louvado pelos irmãos reconciliados. Naquela mesa, todos estivémos, em espírito!

Os jornais relatam a onda de entusiasmo e euforia com que o povo (há sempre povo para todos) acolheu o líder da RENAMO de regresso à capital do Maputo donde nunca deveria ter saído. Saudaram-no como "messias" mas parece que tiveram o cuidado de o desidentificar de Jonas Savimbi que, no mês de Janeiro de 1975, assim era saudado no chão das avenidas de Luanda "Savimbi, o Deus na Terra". Todos sabemos em que se traduziu tão falacioso messianismo.

Entre a saída e o regresso de Afonso Dlhakama à capital, ficaram milhares de vidas moçambicanas sacrificadas no altar do ódio, da arrogância armada, da incompetência e da intolerância políticas.

Faço votos - e quem é que os não faz? - por que a Paz não seja efémera mas decisiva e eterna. Que nos novos desafios e nos conflitos políticos que inevitavelmente surgirão entre as distintas forças políticas ninguém mais se lembre de ameaçar com armas. Que a civilidade seja servida, em cada mesa política, antes da refeição (parafraseando Tiago de Melo).

Infelizmente, as soluções não foram tão genuinamente moçambicanas como se desejaria. Foi difícil, mas os observadores estrangeiros aí estão para, eventualmente, garantirem, ou não, a correcção do que falta concretizar e que se torna mais difícil e melindroso: despartidarizar, radicalmente, o aparelho de estado e governamental, sobretudo as FADM e as polícias.

Que um soldado e um polícia possam ser vistos, sempre, como amigos e leais servidores de quem, em qualquer dificuldade, deles possa precisar. Como me vêm à memória os cravos vermelhos na ponta das espingardas, no meu Portugal Natal, no 25 de Abril! Soldado, camarada e Amigo! E irmão! Que não mais haja directores de serviços, sejam quais forem, que tenham, em Moçambique, de fingir serem do partido governamental ou do presidente do município. Nunca mais!

Sim, Moçambique que, no meio de muito sangue, já foi apontado como um exemplo na solução de conflitos gravíssimos pelo diálogo interno, reapareça, agora, como exemplo, para o Mundo, como construtor de uma genuína democracia moderna.
Que fique livre de teias monopartidárias e, também, dos atavismos tradicionais, por vezes teimosamente apresentados, tanto por alguns estrangeiros como por alguns nacionais, como intransponíveis tropeços à construção de um estado moderno e republicano.

Com os corações alimentados dos Novos Céus, construamos, aqui a Nova Terra. Em religião cristã costumamos convidar à Confissão dos Pecados, a pedir perdão por eles e a fazer sérios propósitos de Consciência. Bom seria que a Renamo e a Frelimo o fizessem nesta hora de novas partidas. Pedir perdão ao Povo Moçambicano, pelas vidas sacrificadas, não seria humilhação, mas nobreza de alma e superioridade política!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Paz com cautela

A notícia correu célere e de todo o lado surgem manfestações de apreço pela Paz reencontrada. Não há, no entanto, euforias. Como que toda a gente se interroga: desta vez será a sério? Que ela seja eterna, digo eu.

Mas sentimos bem que depois do evitável martírio de inocentes durante mais de um ano de retorno à guerra não declarada (só agora se declarou a cessação das hostilidades de uma guerra nunca declarada), as pessoas estão desconfiadas.

Quem provocou um reacender, 20 anos depois do AGP-1992, será mesmo digno de confiança? Não voltará a violar o que nunca chegou a cumpriri de verdade?
 Todos fazemos votos, claro: que ela venha para não mais se ir embora. Que fique mesmo.

Definitivamente. Mas ninguém faz actos de fé. Sim, porque, lá diz o ditado: "Gato escaldado de água fria tem medo", ou, melhor dizendo, "coitado do mentiroso, mente uma vez mente sempre e mesmo que fale verdade, todos lhe dizem que mente".

De todos, de uma sociedade que pacientemente acompanhou o sender da arrogância e do autoritarismo, depende o êxito efectivo.

Vigilância, como se pregava há 40 anos, nas horas da Independencia, Vigilência popular, eis o que faz falta. Vigilência efectiva, comprometida. Por uma Paz eterna!
Conquista de cada dia. Nunca está defintivamente estabelecida!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

CPLP: coberta de ridículo e contradições

Coberta de ridículo e pejada de contradições porque, os seus actuais actores, nem sequer respeitam os mais elementares princípios que a regem:
1º Na Guiné Equatorial não se fala português.
2º Na Guiné Equatorial não se respeitam os mais elementares direitos humanos; não se trata de um país de direito democrático.



Não estou sozinho nesta indignação. Os intervenientes do debate africano na RDPA de hoje, e os do Contraditório da Antena 1 da RDP, de ontem,não podiam ter sido mais críticos e, por vezes, mesmo mais sarcásticos.
O caso não é para menos. Obiang fala tão bem português que apareceu na TV a responder "Si, si, muy satisfecho" (castelhano) e, no site oficial, segundo os referidos analistas da RDP, publicitou o acto da sua adesão em espanhol, francês e inglês! Onde ficou a língua  que diz ser oficial no seu país? Palhaçada! Tanta que o humorista Ricardo Araújo Pereira logo apareceu a sugerir 3 novos candidatos do estilo deste! Adivinhem!É ou não é ridículo?

Mas o que mais indigna nem é esse aspecto ridículo. o que mais me dói é saber que um torcionário - Theodore Obiang, presidente da Guiné Equatorial, denunciado pelos seus  concidadãos, sobretudo os opositores forçados ao exílio - conseguiu fazer-se aceitar no convívio de gente que parece ter esquecido a matriz dos seus fundadores e companheiros caídos em combate:


Amilcar Cabral e Aristides Pereira (Guiné-Bissau e Cabo Verde),  Agostinho Neto (Angola), Eduardo Mondlane e Samora Machel (Moçambique) e milhares e milhares de outros assassinados pelas forças colonialistas portuguesas (e indonésias, no caso de Timor-Leste) - sofreram e lutaram tudo aquilo que os mais velhos sabemos, e os mais novos devem aprender, pela Independência e pela Liberdade dos seus povos.



Apesar de toda a degradação a que temos assistido dos sonhos que nos alimentaram nos idos anos 1960, jamais me passaria pela cabeça que os petrodólares pudessem perverter tanta alma política. Jamais!Verdade seja que Jesus nos dizia neste domingo "Deixai que o trigo e o joio cresçam juntos".... Obiang vai converter-se? E o filho também? Como Zaqueu, da estória de Jesus, irão entregar aos pobres metade dos seus bens e devolver, a quadruplicar, o que defraudaram ? É uma piedosa esperança!

Samora Machel durante a luta armada de libertação nacional

Claro que há 50 anos, a Frelimo e o MPLA lutaram pela independência revolucionária e popular dos seus povos. 

Parece que os sonhos se finaram com a morte dos fundadores.
Toda a gente sabe quem é José Eduardo dos Santos de Angola. Quem tem governado, sem escrúpulos, o seu país, e, graças à hipocrisia da diplomacia, já conseguiu entrar no Vaticano do Papa Francisco, pavonear-se pelo Brasil e Cuba, não terá rebuços em hospedar o torcionário da Guiné Equatorial. O dinheiro manda mais alto.




Quem de nós poderia imaginar um combatente  como Xanana Gusmão 
 a levar, pela mão, um carrasco do seu próprio povo, como se de um menino inocente se tratasse? Onde chegámos?

Aí está para que não haja dúvidas: todos se vendem ao deus-dinheiro porque, realmente não sabem que "nem só de pão vive o homem" mas, sobretudo, da palavra, da sabedoria que sai da boca de Deus. E o Deus-Jesus foi claro: não podeis servir a Deus e ao dinheiro!

Razão tem o Papa Francisco quando diz na sua exortação apostólica A ALEGRIA DO EVANGELHO: "Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres" (Nº205).

Finalmente, e apesar de não ser "o presidente do meu voto", tenho de dar uns parabenszitos ao Presidente Cavaco Silva por ter aguentado ter ficado na situação incómoda de não aplaudir a vergonha do que estava a acontecer diante dos seus olhos. Parabéns! Mais honrado teria ficado se tivesse ficado "honradamente só" e tivesse vetado. Teria sido mestre de cidadania, de dignidade política, de verticalidade. Enfim, de tudo aquilo que os outros precisavam naquele indigno momento de vergonha política.


Quanto a Guebuza atentemos nas aflições por que se passa, hoje, em Moçambique por causa do petróleo, do gás e do carvão e de todas as outras riquezas do sub-solo que todos os dias vão surgindo. 

De facto, o poder do dinheiro corrompe os corações e as mentes. É profundamente frustrante saber que amigos meus de há 30 e 40 anos, com quem partilhei os sonhos da luta pela liberdade possam ter traído desta maneira.

Quem poderia imaginar que o PT de Lula haveria de apoiar um
 torcionário africano? Ou a ausência de Dilma significa um apoio de arrependido?

De facto, mal vai o mundo! Não admira que os políticos sejam, cada vez mais, gente sem credibilidade. Façamos coro com o Papa Francisco a ver se conseguimos mudar alguns para o caminho do Bem fazer. Pela Paz!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nacionalidade Honorária

Arcebispo Manuel  “o esquecido”?

 já referi em dois posts anteriores, em 14 de Abril de há 40 anos (Domingo de Páscoa) foi expulso pelo governo colonial por, sem rodeios, ter proclamado o direito do Povo Moçambicano à autodeterminação total e completa, isto é, à independência. Releiam-se, por exemplo, entre muitos, os seus emblemáticos textos Estamos numa Hora de Viragem e Repensar a Guerra.
, por isso, vergonhosamente humilhado pelos colonialistas como mostra a fotografia então profusamente distribuída de norte a sul de Moçambique e se pode rever no post anterior, com a legenda que aqui repito:

BISPO DE NAMPULA
VIEIRA PINTO
  FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA 
 INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS 
 VIVA PORTUGAL 
UNO E INDIVISÍVEL


Cidadão de corpo inteiro, moçambicano de zelo e coração, 
português de origem, profeta de tempos novos, só no fim do seu longo mandato de 34 anos de serviço a Nampula e a Moçambique, no dia 11 de Março de 2001, tocaria na questão da adopção da nacionalidade moçambicana. Na sessão de boas-vindas ao seu sucessor, Tomé Makhweliha, deixou escapar, com emoção: “talvez agora seja o momento para pensar nisso”.

Poucos dias depois, saiu com uma pequena maleta de viagem, como quem diz “até já, não demoro!” Não voltou mais!

Poucos dias antes, creio que na sua última homilia de despedida, na catedral, movido pela emoção mais desprendida pela idade, o coração falou mais alto e disse, bem claro, que gostaria de ali  ser sepultado. O testamento mantém-se.

De imediato, sai, no jornal SAVANA, um texto em que dois jovens macuas se manifestavam como os primeiros ingratos, ridicularizando tão afectuoso desejo do velho arcebispo! Logo um outro moçambicano, velho – o Papá M’pomberah - me apresentaria tão desprezível e ingrato artigo perguntando-me, no meu gabinete da Rádio Encontro “Está preparado para o mesmo?”

No passado dia 25 de Junho, no 39º aniversário da Independência deste pais, fui surpreendido pelo gesto inaudito de, na Presidência da República, se ter procedido a desusada cerimónia de concessão de nacionalidade honorária a personalidades estrangeiras, vivas ou defuntas.

Exultei ao rever a face solene de K. Khaunda, o tal que apadrinhou o casamento de Samora e Graça. Emocionei-me ao escutar o nome de Julius Nyerere, o mais distinto e santo político de África, sempre humilde e de coração de pobre.

E fui escutando os nomes de outros: Seretse Khama, Aldo Aielo, Maria Rafaeli.. etc.

E de repente, caí em mim, e perguntei-me: e o Arcebispo Manuel?

Pergunto agora: foi esquecimento ou está de reserva para a celebração dos 40 anos! Aqui fica sugestão, para que se não incorra em censurável ingratidão nacional.

sábado, 17 de maio de 2014

O 25 de Abril e o Bispo de Nampula



O 25 de Abril apanhou o Bispo Manuel Vieira Pinto, em Portugal, na situação de expulso de Moçambique (acontecera no próprio Domingo de Páscoa- 14 de Abril, nesse ano) e, ao que tudo indicava, em riscos de ser expulso mesmo de Portugal. Era isso que parecia programado na fotografia profusamente distribuída em Moçambique, de Norte a Sul, durante o Mês de Março:



BISPO DE NAMPULA
VIEIRA PINTO
  FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA 
 INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS 
 VIVA PORTUGAL UNO 
E INDIVISÍVEL


Vieira Pinto chegara a Moçambique em Setembro de 1967 onde o comando do  General Kaulza de Arriaga se mostraria impotente diante da impetuosidade da luta da Frelimo. A famosa operação Nó Górdio (1970), fracassaria redondamente.

Na Catedral de Nampula, pela voz firme e profética do jovem Bispo recém-nomeado, ecoava a exortação de Paulo VI em Fátima: Homens, sede Homens!

Desde o primeiro momento, Vieira Pinto, muito espontaneamente, acontecia-lhe como agora ao Papa Francisco, e aí estava ele com gestos e palavras que deixavam os colonos desconcertados.

Momentos depois de aterrar, ultrapassa as filas VIPs e vai lá atrás, às filas do povo africano que o espreitava e, tomando uma criança dos braços de uma mãe macua,
eleva-a em direcção ao sol. Murmurações surdas de colonos, e gritos de exultante alegria, de negros, misturam-se. Durante toda a sua vida Vieira Pinto narraria esta cena fundante da sua pastoral em Nampula, e que repetiria vezes sem conta, com natural agrado do Povo.

Depois, não perderia tempo a tratar de mudar mentalidades ao ritmo do Vaticano II. Em 1971 publicou  Estamos numa Hora de Viragem, documento verdadeiramente programático de corte com os equívocos e as ambiguidades da acção missionária ao abrigo do Acordo Missionário em que a "portugalização" mais prejudicava do que favorecia uma autêntica evangelização.

Mas a Homilia do Dia Mundial da Paz de 1974 - Repensar a Guerra - foi a gota de água que fez transbordar a (im)paciência e a raiva do regime colonial, sobretudo da PIDE.

No mês de Fevereiro, os Padres e as Irmãs Combonianos  publicam, na linha da atitude dos Padres Brancos em 1971, Um Imperativo de Consciênciaversando sobre os direitos do Povo Moçambicano. O Bispo assina também. Rapidamente chega ao conhecimento das autoridades e as manobras de ataque não se fazem esperar.

Manifestações arruaceiras orquestradas pela PIDE manipulando as forças mais primárias, ignorantes e colonialistas de Nampula,  levam, primeiro, ao ataque à Igreja Paroquial de S. Pedro, onde partiram todos os vidros, à Catedral e ao Centro Catequético do Anchilo, bem como a pedradas e insultos de fronte da residência episcopal, e, finalmente, à prisão de 10 missionários combonianos juntamente com o Bispo, a pretexto, dizia o Governador Gama Amaral, de os defender da fúria popular. Todos seriam expulsos não só de Nampula mas também de Moçambique.

Com o 25 de Abril não se fez esperar o desagravo político. O General Spínola convidou-o para membro do Conselho de Estado, o que foi, naturalmente, declinado.

Vieira Pinto, por decisão pessoal, regressaria a Nampula em Janeiro de 1975, em pleno processo de transição para a Independência em cuja cerimónia oficial, no estádio da Machava, foi convidado expresso do Presidente Samora.

Finalmente eleito presidente da CEM ainda pela maioria dos seus pares portugueses (apenas tinham sido nomeados os dois primeiros bispos negros moçambicanos, Alexandre Maria dos Santos (Lourenço Marques/Maputo) e Januário Nhamgumbe (Porto Amélia/Pemba), não chegaria a terminar o seu mandato. Outros valores nacionalistas se levantavam entretanto. Mas Vieira Pinto permaneceu em serviço lúcido e dedicado ao seu povo, agora sob os ventos da revolução marxista-leninista de que a Frelimo se reclamava contundentemente.

São deste tempo 3 documentos importantíssimos onde a coragem e a serenidade da sua visão profética mais uma vez se fazem  alimento precioso para quem não queria nem virar anti-comunista primário, nem colaborador acrítico da proclamada obra de reconstrução nacional revolucionária:

- Interpelações da revolução
- Tentações da hora presente
- Um Tempo Novo
-  Ateísmo e Religião - Fé e Revolução 


Já nos tempos da maldita guerra civil, pronunciou uma importante homilia no Dia Mundial da Paz de 1984 que teve por título:

A CORAGEM DA PAZ

No mês de Março seguinte seria celebrado o Acordo de Incomati entre o regime do Apartheid e o governo de Samora Machel. Mas o martírio da guerra perduraria ainda muito para lá da morte de Samora (19 de Outubro de 1986), até ao Acordo Geral de Paz entre a RENAMO e o Governo de Moçambique (4.10.1992), que, por não ter sido devidamente implementado o seu protocolo IV, está a provocar sérias perturbações militares com novas e inúteis perdas de vidas nestes dias.

O Arcebispo Manuel Vieira Pinto permaneceria em Moçambique até ao Mês de Março de 2001, altura em que tomou posse o seu sucessor, o primeiro arcebispo moçambicano de Nampula, Tomé Makhweliha.

Vive os seus últimos dias na Casa Sacerdotal da Diocese do Porto de cuja Fraternidade foi um dos grandes impulsionadores enquanto jovem padre.



terça-feira, 8 de abril de 2014

Expulsão do Bispo de Nampula - Manuel Vieira Pinto

Foi há 40 anos

Tenho andado arredado deste ambientes interneticos, não porque me falte matéria, mas porque o tempo também  foge aqui em Nampula e porque as condições tecnológicas de que disponho não têm sido as melhores.

Mas hoje, ao acordar, adverti que estamos numa semana a todos os títulos emblemática para todos os que amam a liberdade e os seus combates, ontem ou hoje.

O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, faz parte da história da Igreja e deste País. Para já, aqui fica algum registo de memória.

Foi há 40 anos. Exactamente nesta semana. Deixo, de memória, a via-sacra que então se cumpriu:

1° Regressando de Quelimane, onde a CEM estivera reunida com o Núncio Apostólico em Lisboa, deparamos com desusado movimento manifestativo na estrada, na zona industrial, hoje mais conhecida por Faina.

2°  Logo pressenti a hostilidade. Era contra o Bispo. Acelerei o land rover e escapámo-nos, rumo a casa, temendo encontrar novos tumultos na própria cidade onde era inevitável termos de passar.

3° No dia seguinte, dia 10, Quarta Feira Santa, os colonos portugueses atacaram a Igreja de S.Pedro, nos subúrbios de Nampula - hoje bairro de Napipine.- onde pastoreava o intrépido e profético Padre Cornélio Prandina, já partido para o céu, apelidado pelos seus confrades, pela sua intrépida postura de antes e depois da Indpendência, como o Padre Coragem.

4° Dia 11 - Quinta Feira Santa - O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, é detido em Nampula e levado para prisão domiciliária na Namaacha (Colégio da Irmãs da Apresentação de Maria) donde sairá para bordo do avião da TAP, a caminho de Lisboa.

5° Domingo de Páscoa - Expulsão a bordo do avião da TAP para Lisboa.

Aquele que, com fotografia infame, fora propagandeado pela PIDE e seus acólitos - mesmo católicos - de Norte a Sul de Moçambique, como FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA, INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS,  permaneceria em Portugal, graças ao 25 de Abril.