sábado, 17 de maio de 2014

O 25 de Abril e o Bispo de Nampula



O 25 de Abril apanhou o Bispo Manuel Vieira Pinto, em Portugal, na situação de expulso de Moçambique (acontecera no próprio Domingo de Páscoa- 14 de Abril, nesse ano) e, ao que tudo indicava, em riscos de ser expulso mesmo de Portugal. Era isso que parecia programado na fotografia profusamente distribuída em Moçambique, de Norte a Sul, durante o Mês de Março:



BISPO DE NAMPULA
VIEIRA PINTO
  FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA 
 INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS 
 VIVA PORTUGAL UNO 
E INDIVISÍVEL


Vieira Pinto chegara a Moçambique em Setembro de 1967 onde o comando do  General Kaulza de Arriaga se mostraria impotente diante da impetuosidade da luta da Frelimo. A famosa operação Nó Górdio (1970), fracassaria redondamente.

Na Catedral de Nampula, pela voz firme e profética do jovem Bispo recém-nomeado, ecoava a exortação de Paulo VI em Fátima: Homens, sede Homens!

Desde o primeiro momento, Vieira Pinto, muito espontaneamente, acontecia-lhe como agora ao Papa Francisco, e aí estava ele com gestos e palavras que deixavam os colonos desconcertados.

Momentos depois de aterrar, ultrapassa as filas VIPs e vai lá atrás, às filas do povo africano que o espreitava e, tomando uma criança dos braços de uma mãe macua,
eleva-a em direcção ao sol. Murmurações surdas de colonos, e gritos de exultante alegria, de negros, misturam-se. Durante toda a sua vida Vieira Pinto narraria esta cena fundante da sua pastoral em Nampula, e que repetiria vezes sem conta, com natural agrado do Povo.

Depois, não perderia tempo a tratar de mudar mentalidades ao ritmo do Vaticano II. Em 1971 publicou  Estamos numa Hora de Viragem, documento verdadeiramente programático de corte com os equívocos e as ambiguidades da acção missionária ao abrigo do Acordo Missionário em que a "portugalização" mais prejudicava do que favorecia uma autêntica evangelização.

Mas a Homilia do Dia Mundial da Paz de 1974 - Repensar a Guerra - foi a gota de água que fez transbordar a (im)paciência e a raiva do regime colonial, sobretudo da PIDE.

No mês de Fevereiro, os Padres e as Irmãs Combonianos  publicam, na linha da atitude dos Padres Brancos em 1971, Um Imperativo de Consciênciaversando sobre os direitos do Povo Moçambicano. O Bispo assina também. Rapidamente chega ao conhecimento das autoridades e as manobras de ataque não se fazem esperar.

Manifestações arruaceiras orquestradas pela PIDE manipulando as forças mais primárias, ignorantes e colonialistas de Nampula,  levam, primeiro, ao ataque à Igreja Paroquial de S. Pedro, onde partiram todos os vidros, à Catedral e ao Centro Catequético do Anchilo, bem como a pedradas e insultos de fronte da residência episcopal, e, finalmente, à prisão de 10 missionários combonianos juntamente com o Bispo, a pretexto, dizia o Governador Gama Amaral, de os defender da fúria popular. Todos seriam expulsos não só de Nampula mas também de Moçambique.

Com o 25 de Abril não se fez esperar o desagravo político. O General Spínola convidou-o para membro do Conselho de Estado, o que foi, naturalmente, declinado.

Vieira Pinto, por decisão pessoal, regressaria a Nampula em Janeiro de 1975, em pleno processo de transição para a Independência em cuja cerimónia oficial, no estádio da Machava, foi convidado expresso do Presidente Samora.

Finalmente eleito presidente da CEM ainda pela maioria dos seus pares portugueses (apenas tinham sido nomeados os dois primeiros bispos negros moçambicanos, Alexandre Maria dos Santos (Lourenço Marques/Maputo) e Januário Nhamgumbe (Porto Amélia/Pemba), não chegaria a terminar o seu mandato. Outros valores nacionalistas se levantavam entretanto. Mas Vieira Pinto permaneceu em serviço lúcido e dedicado ao seu povo, agora sob os ventos da revolução marxista-leninista de que a Frelimo se reclamava contundentemente.

São deste tempo 3 documentos importantíssimos onde a coragem e a serenidade da sua visão profética mais uma vez se fazem  alimento precioso para quem não queria nem virar anti-comunista primário, nem colaborador acrítico da proclamada obra de reconstrução nacional revolucionária:

- Interpelações da revolução
- Tentações da hora presente
- Um Tempo Novo
-  Ateísmo e Religião - Fé e Revolução 


Já nos tempos da maldita guerra civil, pronunciou uma importante homilia no Dia Mundial da Paz de 1984 que teve por título:

A CORAGEM DA PAZ

No mês de Março seguinte seria celebrado o Acordo de Incomati entre o regime do Apartheid e o governo de Samora Machel. Mas o martírio da guerra perduraria ainda muito para lá da morte de Samora (19 de Outubro de 1986), até ao Acordo Geral de Paz entre a RENAMO e o Governo de Moçambique (4.10.1992), que, por não ter sido devidamente implementado o seu protocolo IV, está a provocar sérias perturbações militares com novas e inúteis perdas de vidas nestes dias.

O Arcebispo Manuel Vieira Pinto permaneceria em Moçambique até ao Mês de Março de 2001, altura em que tomou posse o seu sucessor, o primeiro arcebispo moçambicano de Nampula, Tomé Makhweliha.

Vive os seus últimos dias na Casa Sacerdotal da Diocese do Porto de cuja Fraternidade foi um dos grandes impulsionadores enquanto jovem padre.



terça-feira, 8 de abril de 2014

Expulsão do Bispo de Nampula - Manuel Vieira Pinto

Foi há 40 anos

Tenho andado arredado deste ambientes interneticos, não porque me falte matéria, mas porque o tempo também  foge aqui em Nampula e porque as condições tecnológicas de que disponho não têm sido as melhores.

Mas hoje, ao acordar, adverti que estamos numa semana a todos os títulos emblemática para todos os que amam a liberdade e os seus combates, ontem ou hoje.

O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, faz parte da história da Igreja e deste País. Para já, aqui fica algum registo de memória.

Foi há 40 anos. Exactamente nesta semana. Deixo, de memória, a via-sacra que então se cumpriu:

1° Regressando de Quelimane, onde a CEM estivera reunida com o Núncio Apostólico em Lisboa, deparamos com desusado movimento manifestativo na estrada, na zona industrial, hoje mais conhecida por Faina.

2°  Logo pressenti a hostilidade. Era contra o Bispo. Acelerei o land rover e escapámo-nos, rumo a casa, temendo encontrar novos tumultos na própria cidade onde era inevitável termos de passar.

3° No dia seguinte, dia 10, Quarta Feira Santa, os colonos portugueses atacaram a Igreja de S.Pedro, nos subúrbios de Nampula - hoje bairro de Napipine.- onde pastoreava o intrépido e profético Padre Cornélio Prandina, já partido para o céu, apelidado pelos seus confrades, pela sua intrépida postura de antes e depois da Indpendência, como o Padre Coragem.

4° Dia 11 - Quinta Feira Santa - O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, é detido em Nampula e levado para prisão domiciliária na Namaacha (Colégio da Irmãs da Apresentação de Maria) donde sairá para bordo do avião da TAP, a caminho de Lisboa.

5° Domingo de Páscoa - Expulsão a bordo do avião da TAP para Lisboa.

Aquele que, com fotografia infame, fora propagandeado pela PIDE e seus acólitos - mesmo católicos - de Norte a Sul de Moçambique, como FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA, INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS,  permaneceria em Portugal, graças ao 25 de Abril.

domingo, 2 de março de 2014


Política – Uma forma preciosa de caridade – Papa Francisco, EG, 205

Regresso a Moçambique onde o ambiente político está intensamente aquecido pela sucessão do Presidente Guebuza que, com inteligência e sagacidade, domina o palco mediático do país com a desusada iniciativa de apresentar três pré-candidatos à candidatura da sua sucessão na Presidência da República nas próximas eleições de Outubro.

Para lá dos independentes que, oportunamente, possam surgir, já sabemos que se conta com os outros dois candidatos “naturais”: Dlhakhama (pela Renamo, que já se terá arrependido de não ter concorrido às autárquicas de Novembro passado) e Daviz Simango (do MDM).

Eu sempre ouvi dizer que, segundo os Estatutos da Frelimo, o candidato à PR é o Presidente do Partido. Não o podendo ser por imperativos constitucionais (não admissão a um terceiro mandato, como é, agora, o caso), o assunto poderia ser resolvido tal como, creio, foi em 2004: alteraram-se os Estatutos substituindo Presidente do Partido por Secretário Geral e, actu continuo, promoveu-se a substituição do SG pela personalidade que, entretanto, se manifestara apetente pelo alto cargo do País: Armando Guebuza. É certo que, naquela altura, também houve alguma encenação de eleição, mas tudo ficou muito interno e longe desta ribalta mediática que, nestes dias, tem  trazido o país suspenso sobre o presente e o futuro.

Esta opção pelo mediatismo nacional teve uma vantagem: revelou um pouco mais as clivagens ou divisões que vêm atravessando o Partido Frelimo. Surgiram contestações às opções políticas de Guebuza que se traduziram no reaparecimento de figuras que tinham sido remetidas à prateleira: Aires Ali e Luiza Diogo, de forma retumbante, e Eneas Comiche e Eduardo Mulembwe de forma mais discreta. Isto dá mostras de que, também no Partido Frelimo, há reservas morais e políticas que podem viabilizar caminhos de melhores respostas às esperanças do povo do que os calcorre-ados por Gebuza, nos últimos anos.

Finalmente, na noite de ontem para hoje, 2 de Março, num acto eleitoral interno do Comité Central, o país assistiu a um exercício de democracia que me pareceu bem mais sadio do que o arcaico centralismo democrático de que a indicação dos três primeiros pre-candidatos, - Pacheco, Vaquina e Nhussi - foi, parece-me, uma derradeira tentativa. Claro que o resultado final não surpreendeu, tendo em conta a correlação de forças em presença. 

Dou parabéns àqueles que, pela sua coragem política, terão contribuído para imprimir a este processo, dentro da Frelimo, alguma pureza e transparência política. Nhussi, vai ser candidato, tanto quanto me parece, também por algum mérito pessoal, depois de se ter confrontado tanto com os 2 colegas integrantes do seu governo (sendo um deles o seu PM e tendo em conta que, realmente, o governo é do PR) como Aires Ali e Luísa Diogo das ditas facções distintas. Esta confrontação que chegou a ser opinada, na TVM, por gente da Frelimo, nos intervalos mediáticos, como lição também para os outros partidos - que atrevido complexo de superioridade! - foi, pelo menos, um exercício interno de alguma democracia... Já se sente que nem tudo é monolítico, o que é muito bom.

Desejo ao candidato Filipe Nhussi uma caminhada de irrepreensível honestidade política. Prestará um grande serviço ao país se a este assunto der muitas das suas energias rumo à almejada vitória. Que ela, sendo-o, venha a ser irrepreensivelmente justa!

Como sabemos, é bastante consensual que os grandes atributos universalmente requeridos para eleições – Livres, Justas e, sobretudo, Transparentes – não têm passado de palavrório no Moçambique pluripartidário. Com mágoa o digo, porque o constatei, eu próprio, quando ainda andava ingenuamente convencido de que haveria decência política bastante para tornar inviáveis falcatruas eleitorais como aquelas que, agora, o Conselho Constitucional divulgou. O caso das autárquicas do Guruè é a prova emblemática de que, com razão, o Partido Frelimo (onde está a maioria dos meus amigos e companheiros de caminhada política desde que cheguei a Moçambique em 1968) está sob suspeita. O que é muito triste!

Espero que Filipe Nhussi, como cristão católico que é, para bem de todo o Povo moçambicano (do Rovuma, donde ele é oriundo, até ao Maputo, onde se rege a sorte do país) leve muito a peito todas as palavras do Papa Francisco na sua recente Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), mas, muito especialmente, as que dizem respeito à Política:

Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.[174] Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».[175] Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos?Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e económica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social. (Evangelii Gaudium, 205)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Portagens em Nampula

6 de fevereiro 2014

Portagens em Nampula - serviço público?


Transcrevo:


Projectada concessão
de cinco estradas a gestão privada
Os troços das estradas Matola-Boane, Marracuene-Lindela, Nampula- Nacala, Vanduzi-Changara e Monapo-Ilha de Moçambique foram identificados como sendo prioritários para passarem a gestão privada, supostamente para garantir a sua manutenção, onde os utentes passarão a pagar portagem para nelas transitarem.
Jornal PONTO CERTO 23.01.2014


Demissão do Estado?
Não posso acreditar no que leio... Percebo pouco  dos assuntos em questão, mas esta medida parece-me mais uma das ditas liberalizações que acredita que o privado é que é bom. Creio que tal como eu haverá muita gente que se vai indignar com esta medida.
Sempre ouvi dizer que as portagens deveriam ser a alternativa melhorada (por isso paga) a outras estradas que, embora sendo mais demoradas, garantem a circulação a quem entender não querer , ou não poder pagar uma portagem.
Certamente que todos estamos ainda lembrados da indignação,por parte de muitos condutores, incluindo os de transportes ditos semi-colectivos, vulgo, chapas, aquando do aparecimento da portagem da Matola. De facto a teimosia administrativa venceu e a alternativa, que apesar de tudo existe (embora muito perigosa - pelas 18.30 h já fui alvo de tentativa de assalto, por 2 vezes estando numa bicha do circulando do Fomento  para a Machava/Matola. 
Não estou, de facto, familiarizado com esta área. Mas, se já me parece pouco aceitável a portagem da Matola ( não só pelo tempo que faz perder em HORAS de ponta, mas também porque, finalmente, ao longo do percurso nós deparamos com tudo menos com uma auto-pista ou via rápida ou auto-estrada) pergunto onde vão aparecer as vias alternativas, livres de portagens, entre Nampula e Nacala e entre Monapo e Ilha de Moçambique, por onde os pacatos cidadãos possam circular livres do ônus da portagem? E quais serão os preços de tais portagens e quem as vai fixar, sendo evidente que o privado vai querer arrebanhar quanto mais puder?
As razões  aduzidas são, apenas, as da manutenção. Mas será que para confiar a dita manutenção   a privados (singela confissão de incompetência do aparelho administrativo do governo) temos de ser nós, o comum dos cidadãos, a pagar uma incapacidade do Estado? Seria descabido  que  o governo, a partir do OE, para garantir a desejada manutenção de qualidade, concessionasse tal actividade a privados sem sobrecarregar os cidadãos? A menos que  o assegurar a circulação básica num pais já deixe de fazer parte das obrigações mínimas do Estado... Serão outros conceitos políticos a que eu, por enquanto, ainda não acedi...

E mais não digo, por ora, esperando ver outras opiniões.
ZL 





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

GUERRA E TENSÃO POLÍTICO-MILITAR




Todos continuamos suspensos desse dito diálogo que parece nunca o ter sido. Porque não há diálogo sem sinceridade e honestidade, sem preconceitos.

Se as ditas conversações Governo/Renamo não tivessem estado, desde o princípio, inquinadas por desconfianças e interesses estranhos ao bem do Povo, nunca teriam caído no impasse em que se vêm atolando.

Cada uma das partes aparece cada dia com mais uma "aparente" birra e contra-birra.

Se, realmente, a Frelimo/Presidente Guebuza deseja devolver a paz e a harmonia ao país, tem, como se diz na minha aldeia-Natal, a faca e o queijo na mão: convoque Dlhakhama para o encontro, seja aonde for, e sejam quais forem as suas exigências. Como diz o evangelho de Jesus de Nazaré "se te baterem numa face apresenta-lhe a outra" ou ainda "se o malvado te pedir para andar uma milha, tu anda duas". Está aqui uma lógica inatacável de sucesso.

Se o Presidente Guebuza está de alma e coração limpos e livres, nada tem a recear: avance, convoque. Sabe muito bem que é a melhor maneira de, como se costuma dizer, "encostar o adversário" à parede. Também sabe muito bem que tem mediadores da confiança de ambas as partes para facilitarem as conversações. Conhece os seus nomes. Deixem-se de manobras preconceituosas que outra coisa não produzem senão desespero para todo o povo moçambicano.

Se o Presidente Guebuza não tomar, pessoalmente, a dianteira deste encontro, quero crer que está com medo de alguma coisa. Sim, porque, lá diz o ditado, "quem não deve não teme".

Em vez da dita manifestação de homenagem no passado dia 18 de Janeiro,que redundou, ao que parece, num humilhante fracasso e querem repetir em Nampula, neste sábado, dia 25, não teria sido mais patriótico terem ajudado o presidente a avançar nesta desejada iniciativa?

Não resisto a evocar o ensejo que tive de surpreender o Presidente Samora quando, acompanhando o meu Bispo Manuel Vieira Pinto, no dia 9 de Maio de 1984, à sua pergunta "ouviram o meu discurso da Zambézia?"   respondi: "sim, sr presidente, ouvi, reli no Notícias e não gostei nada". Podem imaginar o salto do Presidente Samora na sua cadeira! Expliquei. E ele rematou batendo com a sua enérgica atitude no meu ombro: "Tens de vir cá mais vezes". Pois é, há pessoas que precisam de ser ajudadas com realismo a saírem das torres de marfim em que, tantas vezes, se encerram ou são encerradas. Infelizmente, mataram-no-lo quando ele começava a reencaminhar o país por caminhos de mais realismo e sensatez. (Zé Luzia)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

NUNO CASTEL BRANCO, ECONOMISTA REPUTADO DE MOÇAMBIQUE, ESCREVE AO PRESIDENTE GUEBUZA

16 de Novembro

A inquietação é generalizada nesta cidade do Maputo onde ainda me encontro: estrangeiros e moçambicanos, todos vivemos num inquietante clima de perplexidade. Muitos estrangeiros vão pondo a salvo os mais frágeis das suas famílias (mães e crianças); a Escola Portuguesa parece que já teria um êxodo de mais de 60 alunos/as o mesmo se estando a passar com outras escolas de marcas internacionais.

Documentos relevantes, estes dias, pressionando o Governo do Presidente Guebuza:

- Carta do economista moçambicano, Nuno Castel Branco e sua resposta a alguns dos adversários que o contestaram, obviamente, da área restrita do governo. Não digo da FFRELIMO onde, não tenho dúvidas, há muita e importante gente que concorda com o Prof Castel Branco. (lER AQUI A CARTA COMPLETA)

Sem surpresa, os media do regime - a Rádio Moçambique – começaram, ontem, a emitir anúncios do que Jorge Rebelo chamaria, creio, de lambebotas, a repudiar as opiniões de Castel Branco chegando ao descaramento de apelar à intervenção do Ministério Público! Não admira, sempre parece quererem seguir a cartilha do angolano JES.

CARTA DE ALICE MABOTA - DA PRESIDENTE DA LIGA DE DIREITOS HUMANOS DE MOÇAMBIQUE

- ENTREVISTA DE JORGE REBELO

QUERIDOS AMIGOS DO POVO MOÇAMBICANO

30 de Outubro de 2013

A minha intuição de há mais de 1 ano vai-se concretizando. Desde que Dlhakhama se posicionou na emblemática Gorongosa eu vislumbrei o cenário: ele força a situação, como pode, para obrigar a Frelimo à correcção do pacote eleitoral (CNE e STAE) e, de caminho, Guebuza a proveita a deixa para se perpetuar no poder imitando JES (Angola).
Há 1 ano eu acusava Dlhakhama de estar a fazer um favor a Guebuza. Muita gente dizia, em Moçambique, que ele recebia o seu para isso: fingir que era oposição democrática. Hoje acredito que não fosse um favor consciente, mas, pelo estado em que estamos, objectivamente, assim aconteceu.
Ao não conseguir alterar a constituição da República, Guebuza, fazendo jus aos seus dotes políticos (cf Alice Mabote), vem jogando todas as pedras do seu xadrez, com o intuito inconfessado (cf texto de Salomão Moiane anexo) de se perpetuar no poder. Basta que não haja eleições, sejam elas transparentes ou opacas.
A imprensa livre de Moçambique tem feito o seu papel de esclarecimento. Veja-se o SAVANA nº 1033 e o texto de Salomão Moiane (Magazine Independente) que aqui utilizo, anexando, com a devida vénia. Também não falta quem opine que Guebuza não está agarrado ao poder, deseja sinceramente que as eleições se façam, mas já não conseguirá “comandar” todo o Partido Frelimo, sobretudo a ala mais belicosa e militarista. Será?
 Na manhazinha do dia 30 de Outubro, como em cada dia, estando em Lisboa, sintonizei a RDPAfrica para ter mais notícias de Moçambique… Experimentei um instante de esperança quando o locutor anunciou “Hoje, em Maputo, Plataforma da sociedade civil….”. Mas não era a ansiedada mobilização das forças vivas da Nação para decidirem intervir em favor da Paz no país. …Algo de luta contra o HIV/Sida. Sobre a situação político-militar, nada. Desgraçadamente, em sintonia com aminha resposta a muitos amigos que me telefonam, o locutor anuncia uma entrevista no jornal PUBLICO (Lisboa, 30 Nov), de Lourenço do Rosário, intitulada “Moçambique vive uma situação de guerra não declarada”.
Entretanto, nos mesmos dias, a Liga dos Direitos Humanos levou a efeito uma manifestação pela Paz. Em Portugal houve quem anunciasse 30.000 pessoas! Outras acham que eram mais. No entanto, pela imagem de TV, não me pareceu que se tratasse daquela mole humana que a situação aflitiva que vivemos no país, justificaria. No Maputo, pelo menos 200 mil pessoas não seria demais!
É hora limite de exigirmos ao Presidente Guebuza que se submeta ao mais elementar bom senso de aceitar todas as mediações e conselhos da gente moçambicana que lhe exige PAZ e abandone todos os seus caprichos (cf Jorge Rebelo no Savana 1032).
Haja Paz!
Zé Luzia