terça-feira, 26 de agosto de 2014

Paz com cautela

A notícia correu célere e de todo o lado surgem manfestações de apreço pela Paz reencontrada. Não há, no entanto, euforias. Como que toda a gente se interroga: desta vez será a sério? Que ela seja eterna, digo eu.

Mas sentimos bem que depois do evitável martírio de inocentes durante mais de um ano de retorno à guerra não declarada (só agora se declarou a cessação das hostilidades de uma guerra nunca declarada), as pessoas estão desconfiadas.

Quem provocou um reacender, 20 anos depois do AGP-1992, será mesmo digno de confiança? Não voltará a violar o que nunca chegou a cumpriri de verdade?
 Todos fazemos votos, claro: que ela venha para não mais se ir embora. Que fique mesmo.

Definitivamente. Mas ninguém faz actos de fé. Sim, porque, lá diz o ditado: "Gato escaldado de água fria tem medo", ou, melhor dizendo, "coitado do mentiroso, mente uma vez mente sempre e mesmo que fale verdade, todos lhe dizem que mente".

De todos, de uma sociedade que pacientemente acompanhou o sender da arrogância e do autoritarismo, depende o êxito efectivo.

Vigilância, como se pregava há 40 anos, nas horas da Independencia, Vigilência popular, eis o que faz falta. Vigilência efectiva, comprometida. Por uma Paz eterna!
Conquista de cada dia. Nunca está defintivamente estabelecida!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

CPLP: coberta de ridículo e contradições

Coberta de ridículo e pejada de contradições porque, os seus actuais actores, nem sequer respeitam os mais elementares princípios que a regem:
1º Na Guiné Equatorial não se fala português.
2º Na Guiné Equatorial não se respeitam os mais elementares direitos humanos; não se trata de um país de direito democrático.



Não estou sozinho nesta indignação. Os intervenientes do debate africano na RDPA de hoje, e os do Contraditório da Antena 1 da RDP, de ontem,não podiam ter sido mais críticos e, por vezes, mesmo mais sarcásticos.
O caso não é para menos. Obiang fala tão bem português que apareceu na TV a responder "Si, si, muy satisfecho" (castelhano) e, no site oficial, segundo os referidos analistas da RDP, publicitou o acto da sua adesão em espanhol, francês e inglês! Onde ficou a língua  que diz ser oficial no seu país? Palhaçada! Tanta que o humorista Ricardo Araújo Pereira logo apareceu a sugerir 3 novos candidatos do estilo deste! Adivinhem!É ou não é ridículo?

Mas o que mais indigna nem é esse aspecto ridículo. o que mais me dói é saber que um torcionário - Theodore Obiang, presidente da Guiné Equatorial, denunciado pelos seus  concidadãos, sobretudo os opositores forçados ao exílio - conseguiu fazer-se aceitar no convívio de gente que parece ter esquecido a matriz dos seus fundadores e companheiros caídos em combate:


Amilcar Cabral e Aristides Pereira (Guiné-Bissau e Cabo Verde),  Agostinho Neto (Angola), Eduardo Mondlane e Samora Machel (Moçambique) e milhares e milhares de outros assassinados pelas forças colonialistas portuguesas (e indonésias, no caso de Timor-Leste) - sofreram e lutaram tudo aquilo que os mais velhos sabemos, e os mais novos devem aprender, pela Independência e pela Liberdade dos seus povos.



Apesar de toda a degradação a que temos assistido dos sonhos que nos alimentaram nos idos anos 1960, jamais me passaria pela cabeça que os petrodólares pudessem perverter tanta alma política. Jamais!Verdade seja que Jesus nos dizia neste domingo "Deixai que o trigo e o joio cresçam juntos".... Obiang vai converter-se? E o filho também? Como Zaqueu, da estória de Jesus, irão entregar aos pobres metade dos seus bens e devolver, a quadruplicar, o que defraudaram ? É uma piedosa esperança!

Samora Machel durante a luta armada de libertação nacional

Claro que há 50 anos, a Frelimo e o MPLA lutaram pela independência revolucionária e popular dos seus povos. 

Parece que os sonhos se finaram com a morte dos fundadores.
Toda a gente sabe quem é José Eduardo dos Santos de Angola. Quem tem governado, sem escrúpulos, o seu país, e, graças à hipocrisia da diplomacia, já conseguiu entrar no Vaticano do Papa Francisco, pavonear-se pelo Brasil e Cuba, não terá rebuços em hospedar o torcionário da Guiné Equatorial. O dinheiro manda mais alto.




Quem de nós poderia imaginar um combatente  como Xanana Gusmão 
 a levar, pela mão, um carrasco do seu próprio povo, como se de um menino inocente se tratasse? Onde chegámos?

Aí está para que não haja dúvidas: todos se vendem ao deus-dinheiro porque, realmente não sabem que "nem só de pão vive o homem" mas, sobretudo, da palavra, da sabedoria que sai da boca de Deus. E o Deus-Jesus foi claro: não podeis servir a Deus e ao dinheiro!

Razão tem o Papa Francisco quando diz na sua exortação apostólica A ALEGRIA DO EVANGELHO: "Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres" (Nº205).

Finalmente, e apesar de não ser "o presidente do meu voto", tenho de dar uns parabenszitos ao Presidente Cavaco Silva por ter aguentado ter ficado na situação incómoda de não aplaudir a vergonha do que estava a acontecer diante dos seus olhos. Parabéns! Mais honrado teria ficado se tivesse ficado "honradamente só" e tivesse vetado. Teria sido mestre de cidadania, de dignidade política, de verticalidade. Enfim, de tudo aquilo que os outros precisavam naquele indigno momento de vergonha política.


Quanto a Guebuza atentemos nas aflições por que se passa, hoje, em Moçambique por causa do petróleo, do gás e do carvão e de todas as outras riquezas do sub-solo que todos os dias vão surgindo. 

De facto, o poder do dinheiro corrompe os corações e as mentes. É profundamente frustrante saber que amigos meus de há 30 e 40 anos, com quem partilhei os sonhos da luta pela liberdade possam ter traído desta maneira.

Quem poderia imaginar que o PT de Lula haveria de apoiar um
 torcionário africano? Ou a ausência de Dilma significa um apoio de arrependido?

De facto, mal vai o mundo! Não admira que os políticos sejam, cada vez mais, gente sem credibilidade. Façamos coro com o Papa Francisco a ver se conseguimos mudar alguns para o caminho do Bem fazer. Pela Paz!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nacionalidade Honorária

Arcebispo Manuel  “o esquecido”?

 já referi em dois posts anteriores, em 14 de Abril de há 40 anos (Domingo de Páscoa) foi expulso pelo governo colonial por, sem rodeios, ter proclamado o direito do Povo Moçambicano à autodeterminação total e completa, isto é, à independência. Releiam-se, por exemplo, entre muitos, os seus emblemáticos textos Estamos numa Hora de Viragem e Repensar a Guerra.
, por isso, vergonhosamente humilhado pelos colonialistas como mostra a fotografia então profusamente distribuída de norte a sul de Moçambique e se pode rever no post anterior, com a legenda que aqui repito:

BISPO DE NAMPULA
VIEIRA PINTO
  FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA 
 INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS 
 VIVA PORTUGAL 
UNO E INDIVISÍVEL


Cidadão de corpo inteiro, moçambicano de zelo e coração, 
português de origem, profeta de tempos novos, só no fim do seu longo mandato de 34 anos de serviço a Nampula e a Moçambique, no dia 11 de Março de 2001, tocaria na questão da adopção da nacionalidade moçambicana. Na sessão de boas-vindas ao seu sucessor, Tomé Makhweliha, deixou escapar, com emoção: “talvez agora seja o momento para pensar nisso”.

Poucos dias depois, saiu com uma pequena maleta de viagem, como quem diz “até já, não demoro!” Não voltou mais!

Poucos dias antes, creio que na sua última homilia de despedida, na catedral, movido pela emoção mais desprendida pela idade, o coração falou mais alto e disse, bem claro, que gostaria de ali  ser sepultado. O testamento mantém-se.

De imediato, sai, no jornal SAVANA, um texto em que dois jovens macuas se manifestavam como os primeiros ingratos, ridicularizando tão afectuoso desejo do velho arcebispo! Logo um outro moçambicano, velho – o Papá M’pomberah - me apresentaria tão desprezível e ingrato artigo perguntando-me, no meu gabinete da Rádio Encontro “Está preparado para o mesmo?”

No passado dia 25 de Junho, no 39º aniversário da Independência deste pais, fui surpreendido pelo gesto inaudito de, na Presidência da República, se ter procedido a desusada cerimónia de concessão de nacionalidade honorária a personalidades estrangeiras, vivas ou defuntas.

Exultei ao rever a face solene de K. Khaunda, o tal que apadrinhou o casamento de Samora e Graça. Emocionei-me ao escutar o nome de Julius Nyerere, o mais distinto e santo político de África, sempre humilde e de coração de pobre.

E fui escutando os nomes de outros: Seretse Khama, Aldo Aielo, Maria Rafaeli.. etc.

E de repente, caí em mim, e perguntei-me: e o Arcebispo Manuel?

Pergunto agora: foi esquecimento ou está de reserva para a celebração dos 40 anos! Aqui fica sugestão, para que se não incorra em censurável ingratidão nacional.

sábado, 17 de maio de 2014

O 25 de Abril e o Bispo de Nampula



O 25 de Abril apanhou o Bispo Manuel Vieira Pinto, em Portugal, na situação de expulso de Moçambique (acontecera no próprio Domingo de Páscoa- 14 de Abril, nesse ano) e, ao que tudo indicava, em riscos de ser expulso mesmo de Portugal. Era isso que parecia programado na fotografia profusamente distribuída em Moçambique, de Norte a Sul, durante o Mês de Março:



BISPO DE NAMPULA
VIEIRA PINTO
  FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA 
 INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS 
 VIVA PORTUGAL UNO 
E INDIVISÍVEL


Vieira Pinto chegara a Moçambique em Setembro de 1967 onde o comando do  General Kaulza de Arriaga se mostraria impotente diante da impetuosidade da luta da Frelimo. A famosa operação Nó Górdio (1970), fracassaria redondamente.

Na Catedral de Nampula, pela voz firme e profética do jovem Bispo recém-nomeado, ecoava a exortação de Paulo VI em Fátima: Homens, sede Homens!

Desde o primeiro momento, Vieira Pinto, muito espontaneamente, acontecia-lhe como agora ao Papa Francisco, e aí estava ele com gestos e palavras que deixavam os colonos desconcertados.

Momentos depois de aterrar, ultrapassa as filas VIPs e vai lá atrás, às filas do povo africano que o espreitava e, tomando uma criança dos braços de uma mãe macua,
eleva-a em direcção ao sol. Murmurações surdas de colonos, e gritos de exultante alegria, de negros, misturam-se. Durante toda a sua vida Vieira Pinto narraria esta cena fundante da sua pastoral em Nampula, e que repetiria vezes sem conta, com natural agrado do Povo.

Depois, não perderia tempo a tratar de mudar mentalidades ao ritmo do Vaticano II. Em 1971 publicou  Estamos numa Hora de Viragem, documento verdadeiramente programático de corte com os equívocos e as ambiguidades da acção missionária ao abrigo do Acordo Missionário em que a "portugalização" mais prejudicava do que favorecia uma autêntica evangelização.

Mas a Homilia do Dia Mundial da Paz de 1974 - Repensar a Guerra - foi a gota de água que fez transbordar a (im)paciência e a raiva do regime colonial, sobretudo da PIDE.

No mês de Fevereiro, os Padres e as Irmãs Combonianos  publicam, na linha da atitude dos Padres Brancos em 1971, Um Imperativo de Consciênciaversando sobre os direitos do Povo Moçambicano. O Bispo assina também. Rapidamente chega ao conhecimento das autoridades e as manobras de ataque não se fazem esperar.

Manifestações arruaceiras orquestradas pela PIDE manipulando as forças mais primárias, ignorantes e colonialistas de Nampula,  levam, primeiro, ao ataque à Igreja Paroquial de S. Pedro, onde partiram todos os vidros, à Catedral e ao Centro Catequético do Anchilo, bem como a pedradas e insultos de fronte da residência episcopal, e, finalmente, à prisão de 10 missionários combonianos juntamente com o Bispo, a pretexto, dizia o Governador Gama Amaral, de os defender da fúria popular. Todos seriam expulsos não só de Nampula mas também de Moçambique.

Com o 25 de Abril não se fez esperar o desagravo político. O General Spínola convidou-o para membro do Conselho de Estado, o que foi, naturalmente, declinado.

Vieira Pinto, por decisão pessoal, regressaria a Nampula em Janeiro de 1975, em pleno processo de transição para a Independência em cuja cerimónia oficial, no estádio da Machava, foi convidado expresso do Presidente Samora.

Finalmente eleito presidente da CEM ainda pela maioria dos seus pares portugueses (apenas tinham sido nomeados os dois primeiros bispos negros moçambicanos, Alexandre Maria dos Santos (Lourenço Marques/Maputo) e Januário Nhamgumbe (Porto Amélia/Pemba), não chegaria a terminar o seu mandato. Outros valores nacionalistas se levantavam entretanto. Mas Vieira Pinto permaneceu em serviço lúcido e dedicado ao seu povo, agora sob os ventos da revolução marxista-leninista de que a Frelimo se reclamava contundentemente.

São deste tempo 3 documentos importantíssimos onde a coragem e a serenidade da sua visão profética mais uma vez se fazem  alimento precioso para quem não queria nem virar anti-comunista primário, nem colaborador acrítico da proclamada obra de reconstrução nacional revolucionária:

- Interpelações da revolução
- Tentações da hora presente
- Um Tempo Novo
-  Ateísmo e Religião - Fé e Revolução 


Já nos tempos da maldita guerra civil, pronunciou uma importante homilia no Dia Mundial da Paz de 1984 que teve por título:

A CORAGEM DA PAZ

No mês de Março seguinte seria celebrado o Acordo de Incomati entre o regime do Apartheid e o governo de Samora Machel. Mas o martírio da guerra perduraria ainda muito para lá da morte de Samora (19 de Outubro de 1986), até ao Acordo Geral de Paz entre a RENAMO e o Governo de Moçambique (4.10.1992), que, por não ter sido devidamente implementado o seu protocolo IV, está a provocar sérias perturbações militares com novas e inúteis perdas de vidas nestes dias.

O Arcebispo Manuel Vieira Pinto permaneceria em Moçambique até ao Mês de Março de 2001, altura em que tomou posse o seu sucessor, o primeiro arcebispo moçambicano de Nampula, Tomé Makhweliha.

Vive os seus últimos dias na Casa Sacerdotal da Diocese do Porto de cuja Fraternidade foi um dos grandes impulsionadores enquanto jovem padre.



terça-feira, 8 de abril de 2014

Expulsão do Bispo de Nampula - Manuel Vieira Pinto

Foi há 40 anos

Tenho andado arredado deste ambientes interneticos, não porque me falte matéria, mas porque o tempo também  foge aqui em Nampula e porque as condições tecnológicas de que disponho não têm sido as melhores.

Mas hoje, ao acordar, adverti que estamos numa semana a todos os títulos emblemática para todos os que amam a liberdade e os seus combates, ontem ou hoje.

O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, faz parte da história da Igreja e deste País. Para já, aqui fica algum registo de memória.

Foi há 40 anos. Exactamente nesta semana. Deixo, de memória, a via-sacra que então se cumpriu:

1° Regressando de Quelimane, onde a CEM estivera reunida com o Núncio Apostólico em Lisboa, deparamos com desusado movimento manifestativo na estrada, na zona industrial, hoje mais conhecida por Faina.

2°  Logo pressenti a hostilidade. Era contra o Bispo. Acelerei o land rover e escapámo-nos, rumo a casa, temendo encontrar novos tumultos na própria cidade onde era inevitável termos de passar.

3° No dia seguinte, dia 10, Quarta Feira Santa, os colonos portugueses atacaram a Igreja de S.Pedro, nos subúrbios de Nampula - hoje bairro de Napipine.- onde pastoreava o intrépido e profético Padre Cornélio Prandina, já partido para o céu, apelidado pelos seus confrades, pela sua intrépida postura de antes e depois da Indpendência, como o Padre Coragem.

4° Dia 11 - Quinta Feira Santa - O Bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, é detido em Nampula e levado para prisão domiciliária na Namaacha (Colégio da Irmãs da Apresentação de Maria) donde sairá para bordo do avião da TAP, a caminho de Lisboa.

5° Domingo de Páscoa - Expulsão a bordo do avião da TAP para Lisboa.

Aquele que, com fotografia infame, fora propagandeado pela PIDE e seus acólitos - mesmo católicos - de Norte a Sul de Moçambique, como FAMIGERADO TRAIDOR À PÁTRIA, INDESEJÁVEL EM TERRITÓRIO PORTUGUÊS,  permaneceria em Portugal, graças ao 25 de Abril.

domingo, 2 de março de 2014


Política – Uma forma preciosa de caridade – Papa Francisco, EG, 205

Regresso a Moçambique onde o ambiente político está intensamente aquecido pela sucessão do Presidente Guebuza que, com inteligência e sagacidade, domina o palco mediático do país com a desusada iniciativa de apresentar três pré-candidatos à candidatura da sua sucessão na Presidência da República nas próximas eleições de Outubro.

Para lá dos independentes que, oportunamente, possam surgir, já sabemos que se conta com os outros dois candidatos “naturais”: Dlhakhama (pela Renamo, que já se terá arrependido de não ter concorrido às autárquicas de Novembro passado) e Daviz Simango (do MDM).

Eu sempre ouvi dizer que, segundo os Estatutos da Frelimo, o candidato à PR é o Presidente do Partido. Não o podendo ser por imperativos constitucionais (não admissão a um terceiro mandato, como é, agora, o caso), o assunto poderia ser resolvido tal como, creio, foi em 2004: alteraram-se os Estatutos substituindo Presidente do Partido por Secretário Geral e, actu continuo, promoveu-se a substituição do SG pela personalidade que, entretanto, se manifestara apetente pelo alto cargo do País: Armando Guebuza. É certo que, naquela altura, também houve alguma encenação de eleição, mas tudo ficou muito interno e longe desta ribalta mediática que, nestes dias, tem  trazido o país suspenso sobre o presente e o futuro.

Esta opção pelo mediatismo nacional teve uma vantagem: revelou um pouco mais as clivagens ou divisões que vêm atravessando o Partido Frelimo. Surgiram contestações às opções políticas de Guebuza que se traduziram no reaparecimento de figuras que tinham sido remetidas à prateleira: Aires Ali e Luiza Diogo, de forma retumbante, e Eneas Comiche e Eduardo Mulembwe de forma mais discreta. Isto dá mostras de que, também no Partido Frelimo, há reservas morais e políticas que podem viabilizar caminhos de melhores respostas às esperanças do povo do que os calcorre-ados por Gebuza, nos últimos anos.

Finalmente, na noite de ontem para hoje, 2 de Março, num acto eleitoral interno do Comité Central, o país assistiu a um exercício de democracia que me pareceu bem mais sadio do que o arcaico centralismo democrático de que a indicação dos três primeiros pre-candidatos, - Pacheco, Vaquina e Nhussi - foi, parece-me, uma derradeira tentativa. Claro que o resultado final não surpreendeu, tendo em conta a correlação de forças em presença. 

Dou parabéns àqueles que, pela sua coragem política, terão contribuído para imprimir a este processo, dentro da Frelimo, alguma pureza e transparência política. Nhussi, vai ser candidato, tanto quanto me parece, também por algum mérito pessoal, depois de se ter confrontado tanto com os 2 colegas integrantes do seu governo (sendo um deles o seu PM e tendo em conta que, realmente, o governo é do PR) como Aires Ali e Luísa Diogo das ditas facções distintas. Esta confrontação que chegou a ser opinada, na TVM, por gente da Frelimo, nos intervalos mediáticos, como lição também para os outros partidos - que atrevido complexo de superioridade! - foi, pelo menos, um exercício interno de alguma democracia... Já se sente que nem tudo é monolítico, o que é muito bom.

Desejo ao candidato Filipe Nhussi uma caminhada de irrepreensível honestidade política. Prestará um grande serviço ao país se a este assunto der muitas das suas energias rumo à almejada vitória. Que ela, sendo-o, venha a ser irrepreensivelmente justa!

Como sabemos, é bastante consensual que os grandes atributos universalmente requeridos para eleições – Livres, Justas e, sobretudo, Transparentes – não têm passado de palavrório no Moçambique pluripartidário. Com mágoa o digo, porque o constatei, eu próprio, quando ainda andava ingenuamente convencido de que haveria decência política bastante para tornar inviáveis falcatruas eleitorais como aquelas que, agora, o Conselho Constitucional divulgou. O caso das autárquicas do Guruè é a prova emblemática de que, com razão, o Partido Frelimo (onde está a maioria dos meus amigos e companheiros de caminhada política desde que cheguei a Moçambique em 1968) está sob suspeita. O que é muito triste!

Espero que Filipe Nhussi, como cristão católico que é, para bem de todo o Povo moçambicano (do Rovuma, donde ele é oriundo, até ao Maputo, onde se rege a sorte do país) leve muito a peito todas as palavras do Papa Francisco na sua recente Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), mas, muito especialmente, as que dizem respeito à Política:

Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.[174] Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».[175] Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos?Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e económica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social. (Evangelii Gaudium, 205)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Portagens em Nampula

6 de fevereiro 2014

Portagens em Nampula - serviço público?


Transcrevo:


Projectada concessão
de cinco estradas a gestão privada
Os troços das estradas Matola-Boane, Marracuene-Lindela, Nampula- Nacala, Vanduzi-Changara e Monapo-Ilha de Moçambique foram identificados como sendo prioritários para passarem a gestão privada, supostamente para garantir a sua manutenção, onde os utentes passarão a pagar portagem para nelas transitarem.
Jornal PONTO CERTO 23.01.2014


Demissão do Estado?
Não posso acreditar no que leio... Percebo pouco  dos assuntos em questão, mas esta medida parece-me mais uma das ditas liberalizações que acredita que o privado é que é bom. Creio que tal como eu haverá muita gente que se vai indignar com esta medida.
Sempre ouvi dizer que as portagens deveriam ser a alternativa melhorada (por isso paga) a outras estradas que, embora sendo mais demoradas, garantem a circulação a quem entender não querer , ou não poder pagar uma portagem.
Certamente que todos estamos ainda lembrados da indignação,por parte de muitos condutores, incluindo os de transportes ditos semi-colectivos, vulgo, chapas, aquando do aparecimento da portagem da Matola. De facto a teimosia administrativa venceu e a alternativa, que apesar de tudo existe (embora muito perigosa - pelas 18.30 h já fui alvo de tentativa de assalto, por 2 vezes estando numa bicha do circulando do Fomento  para a Machava/Matola. 
Não estou, de facto, familiarizado com esta área. Mas, se já me parece pouco aceitável a portagem da Matola ( não só pelo tempo que faz perder em HORAS de ponta, mas também porque, finalmente, ao longo do percurso nós deparamos com tudo menos com uma auto-pista ou via rápida ou auto-estrada) pergunto onde vão aparecer as vias alternativas, livres de portagens, entre Nampula e Nacala e entre Monapo e Ilha de Moçambique, por onde os pacatos cidadãos possam circular livres do ônus da portagem? E quais serão os preços de tais portagens e quem as vai fixar, sendo evidente que o privado vai querer arrebanhar quanto mais puder?
As razões  aduzidas são, apenas, as da manutenção. Mas será que para confiar a dita manutenção   a privados (singela confissão de incompetência do aparelho administrativo do governo) temos de ser nós, o comum dos cidadãos, a pagar uma incapacidade do Estado? Seria descabido  que  o governo, a partir do OE, para garantir a desejada manutenção de qualidade, concessionasse tal actividade a privados sem sobrecarregar os cidadãos? A menos que  o assegurar a circulação básica num pais já deixe de fazer parte das obrigações mínimas do Estado... Serão outros conceitos políticos a que eu, por enquanto, ainda não acedi...

E mais não digo, por ora, esperando ver outras opiniões.
ZL